editorial
Eu penso e nada…

Eu penso na história e em como foi que muitos foram acostumados a ser só nada, a viver só em uma pequena porção de si mesmos, a não passar a raia; a acreditar, seja para evitar os golpes, que nada são e nada serão, a se conformar e não chiar.
Eu penso nos povos originários, expulsados das suas terras, dos seus costumes, morando nas margens, em um estado de atraso incrível neste mundo de computadores, em algum lugar onde não incomodem, onde não sejam vistos.
É a mesma invisibilização que sofrem os negros, a mesma violência a que foi submetido o povo judeu, as mesmas humilhações naturalizadas, por quotidianas, que recebem as mulheres, os pobres, os homossexuais, os exilados de si mesmos.
Eu penso que não, que é injusto demais: e penso que sim, que é assim, mesmo que eu não goste.
Porque foi assim, com essa mesma lógica, que mais de 30 mil desapareceram aqui, e outros tantos milhares deste mesmo continente. E também na marca sangrenta que isso deixa na sociedade... e não posso deixar de pensar no professor Fuentealba e em círculos recomeço a pensar... eu penso eu penso e...
Eu penso e nada... portanto, não existo.


Dinah

 

Entrevista com Horacio "El Negro" Hernández
Conversação em clave


Elio Ruiz
Por Elio Ruiz
Em uma pequena cidade de New Jersey mora Horacio “El Negro” Hernández, brilhante percussionista cubano que conquistou um lugar importante entre os mais destacados bateristas residentes nos Estados Unidos, e provavelmente do mundo. Uma das suas contribuições mais importantes é a incorporação do cencerro abakuá ao set de instrumentos para ser tocado com um pedal. Convido aos amantes da percussão e da Rumba a participar desta conversação...

ER Gostaria que você me falasse sobre de que maneira a Rumba como gênero, e especialmente o uso diverso das claves como métrica fundamental da música cubana – eu diria até do ser cubano, se nos pusermos num plano pitagórico -, tem marcado o seu estilo de tocar o drums.

HH O que eu posso te dizer é que eu ainda continuo estudando e aprendendo, tentando encontrar as exatas conexões entre as claves que chegaram para a Cuba diretamente da África, e como essas claves deram forma a esta clave que é agora inteiramente nossa, aquela à que você se refere, a clave do guaguancó.

ER Como foi esse processo de aprendizado?

HH No meu caso foram duas etapas. Na primeira etapa, crescendo em La Habana num ambiente onde a rumba foi bastante marginada, bastante negada. Logo foram passando os anos, e nos oitenta nos vimos no pátio da UNEAC (Unión de Escritores y Artistas de Cuba) e ali foram organizadas aquelas tardes inesquecíveis da Rumba com o grandíssimo Pancho “Kinto”, que descanse em paz.

ER Foi precisamente nesse contexto que nasceu meu documental “Quién Baila Aqui” (la Rumba sin lentejuelas), e me propus fazer uma segunda parte com o tema da Rumba no exílio e da influencia que representou em gêneros como a Salsa e o Jazz. O grandioso Pancho “Kinto” é um dos personagens deste documental, como você deve se lembrar, quando ele formava parte do grupo “Yoruba Andabo” que animava aquelas tardes da UNEAC que você menciona.

HH Sim. Eu também penso que a Rumba tem uma conexão única com outros muitos tipos de música, talvez mais popularmente universais. Por exemplo, eu diria que a Rumba é o gênero folklórico cubano mais conectado com o Jazz. É uma situação musical onde existe totalmente a conversação dentre os elementos que as compõem. É um estilo musical onde a improvisação é vamos dizer o oitenta por cento, por assim dizer, da conexão que pode existir entre os jeitos de interpretar e escutar a si mesmos os presentes em uma Rumba. É a mesma decisão com que se toca em um quarteto ou quinteto de Jazz. Tem momentos onde se escuta, momentos em que se conversa, momentos em que a gente tem o seu espaço próprio para, em um dizer, fazer um discurso um pouco mais prolongado, um pouco mais seu talvez. Esse é o caso do kinto como instrumento de percussão. Acho que não estaria errado comparar o kinto com o saxofone no contexto do jazz. O kinto representa totalmente essa mesma liberdade espiritual necessária para conseguir todos esses sons em uma improvisação.

ER Quem foi o percussionista que mais te impressionou nesses anos de aprendizado na Cuba?

HH Sempre que a palavra “Rumba” é mencionada, aparece na minha mente uma pessoa que foi muito especial para todos nós os percussionistas e os músicos em geral: estou falando do Pancho “Kinto”. Pancho foi a pessoa que resgatou a Rumba com o seu espírito, com a sua graça. Ele tirou a Rumba do Porto de La Habana e dos solares (vizinhanças) dos bairros de La Habana e levou-a a um primeiro plano. Esse nome começou a soar até que um dia pudemos escutá-lo no pátio da UNEAC, que era um lugar onde os rumberos nunca haviam tido acesso.

ER Por certo, em Quien Baila Aquí (la rumba sin lentejuelas), o Pancho “Kinto” é mostrado como o último luthier –pedimos essa palabra emprestada- de tambores batás que tivemos em Cuba, feitos segundo a técnica africana original, a partir do tronco da árvore, esvaziando-o. Naqueles anos, graças às gestões do poeta afrocubano Eloy Machado (“El Ambia”), tivemos a oportunidade de nos nutrir do gênio criativo do Pancho “Kinto” e dos seus colegas do “Yoruba Andabo”.

HH As contribuições do Pancho “Kinto” à Rumba e à percussão cubana são inumeráveis. Pancho criou uma forma de tocar a Rumba, forma que foi chamada o guarapachangueo. Ele mudou todos os esquemas da Rumba matancera, vamos dizer, a Rumba que tem os tambores de couro clássicos. Pancho saiu desses padrões estabelecidos e criou novas formas totalmente espetaculares. Ele deu um tratamento diverso aos tambores, misturou a tumbadora com o cajón, a tumbadora com o bata, com o seu cencerro de chão, com a sua colher de comer. Ver o Pancho era como ver um saxofonista de jazz. Ele estava colorindo, ele estava respondendo, ele estava presente e atento a tudo o que estava acontecendo, enfeitando aquilo tudo.

ER Em Cuba acontecem coisas tão incríveis como contar com a monumental obra de Don Fernando Ortiz, que dedicou cinco volumes de árdua e detalhada pesquisa somente para “Los instrumentos de la música cubana”, além de “Africanía de la música em Cuba” e muitos outros trabalhos; e que esse acervo fosse ao mesmo tempo deliberadamente subtraído, e isso fala do racismo implícito existente na mente de muita gente que toma as decisões no nosso país e em particular respeito ao sistema educativo e cultural. Estudava-se música européia ou o estilo soviético, você sabe que aconteceu, e viravam as costas ou engavetavam em certos espaços marginais, ao enorme acervo musical que nos foi legado pelos nossos antepassados africanos. ¿Como essas contradições afetaram você durante a tua formação?

HH Na escola de música não existiam as tumbadoras, não existiam os tambores batas, nem existia o bongó, nem existiam as claves, não existia a cáscara, nem existiam os cencerros... todos eram instrumentos marginados, não podiam nem ser mencionados. Nunca eles, os que mandavam naquilo tudo, quiseram perceber que existia nas ruas dos bairros uma fonte cultural autentica, genuína, própria, uma coisa tão cubana como as palmas reais.

ER Ou seja, eles estavam alienados da essência do país que diziam construir. Ainda bem que todos vocês perceberam isto e foram beber da fonte da música popular.

HH Evidentemente, como disse quem disse, não podemos cobrir o sol com um dedo. A Rumba estava marginada, mas estava aí, em um lugar onde nós a encontramos. Estava aí, maltratada, falava-se muito mal dela, pejorativamente, como coisa de gente baixa, sem educação. Um pouco a Rumba era tratada como um número folclórico arcaico, de cabaré, com a mulata típica, espetacular, a imagem do rumbero com suas guaracheras e o sorriso perene, e aquilo era um pouco ridículo, um pouco cômico, vamos dizer. Ver todas essas situações com uma rumba atrás, que frequentemente era uma rumba fantástica. Deve ser por isso que o teu documental tem o subtítulo “A rumba sem lentejuelas”.

ER “Um golpecito ná más”, sua composição que aparece no disco “Robby and Negro at the Third World War”*, resulta particularmente interessante porque tem uma métrica 5/4, fora do padrão convencional do guaguancó. O que você pode me contar sobre isso?

HH No caso desse número é uma amostra eu diria bonita da mistura da Academia e a Rua. Eu acho que este número é o meio, a metade entre essa escola nossa de música e o que acontecia na rua, no solar e no ambiente popular. 5/4. 7/4, 9/4, são compassos mais difíceis de ser entrados, mas também isso implica que a música que decorre é mais complicada. O que eu gosto de “Um golpecito...” é que não perde o simples que a Rumba leva dentro. Também é importante neste número a conexão entre a música e a letra. A letra diz: “se à minha clave for acrescentado um golpezinho só”. Quer dizer que se ao 4 por 4 acrescentamos 1, obtemos um 5 por 4.

ER É de uma simplicidade comovente, porque também é complexa. Por outro lado, as vozes de Orlando “Puntilla” como solista e da inconfundível Xiomara Laugart no coro são um suporte fundamental e a transformam em uma rumba antológica. Além disto, é uma homenagem ao já mencionado e saudoso Pancho “Kinto”.

HH Exatamente. O vocal é outro aspecto que estabelece um parentesco entre a Rumba e o Jazz. Músicos tem muitos, mas um saxofonista muito bom, na frente, com uma voz muito própria, um som pessoal, uma maneira individual de tocar, não são muitos os que existem. A Rumba é a mesma coisa. Tem muitos tamboreros muito bons, muitos tamboreros que podem formar parte de uma agrupação, mas tem aqueles que são únicos como Pancho, e existem vozes que desde o primeiro momento em que você escuta uma nota, você sabe que essa voz pertence completamente à Rumba, que é a Voz da Rumba. É a voz que de forma crua empasta com o tambor. Não precisa efeitos, não precisa nada mais. Essa é também a voz do nosso Orlando Puntilla, uma dessas vozes que nos diz: “Eu sou a Rumba”.

www.elnegro.com

Primeira Competição Anual
de Música Afro Amerindia


Para o 27 de Maio se convoca a Casa de Religiões de diferentes linhas a participar da Primeira Competição de Música Afro Amerindia. O chamado se abre para categorias solistas e grupais e se anunciam importantes prêmios.

A Assembléia Integradora de Religiões Afro Americanas A.I.D.R.A., convoca a tocadores de Umbanda, Kimbanda, Batuque, Culto Tradicional Cubano, Culto Tradicional de África a se somarem a este primeiro encontro para os ternos solistas e grupais que serão avaliados por um jurado especializado em cada categoria. A convocatória é dia 27 deste mês às 14h e a inscrição será gratuita e com vagas limitadas. A competição se realizará na sede da La Chilinga, grupo que apóia esta iniciativa e cujo espaço está localizado na Rua Ruíz Huidobro 4212 do Bairro de Saavedra. Como convidado especial se espera Olowo Sergio Borges Abla Meji, confirmado como Ojé Agbá na República de Benin (África) e que realizara uma mostra de música e instrumentos tradicionais. Para os interessados, as entradas já se encontram a venda e custam 5 pesos. Se aceitarão também alimentos não perecíveis e materiais escolares como doação al Bairro Pech da localidade de Tortuguitas.

Para conseguir as localidades, inscrever-se ou solicitar mais informação entre em contato pelos telefones 4463-7075, 4463-8610, (15) 6145-8191, pelos emails asambleaintegradora@hotmail.com e asambleaintegradora@yahoo.com.ar ou dirija-se à sede de La Chilinga em Ruíz Huidobro 4212, Capital Federal. Para + info http://asambleaintegradora.spaces.live.com

 

Arte Africana
Artigo extraído da Revista África Origem Nro.1 Novembro 2003

Na África, durante milênios, as pessoas têm criado e armazenado a arte para representar seus sistemas de crenças religiosas, para constar sua historia, para descrever os acontecimentos importantes de suas vidas e de suas comunidades ou para a decoração do entorno em que viviam, a ornamentação pessoal e o embelezamento dos objetos cotidianos que utilizavam.

O primeiro impacto da arte africana foi conhecido no mundo ocidental no final do século X, trazidos de Benin e da atual Nigéria. Entretanto, até ultima parte do século XIX, as obras africanas não tiveram interesse para o colecionador europeu, já que as consideravam como trabalhos manuais de tribos selvagens. Os colecionadores europeus reuniram amplas coleções de trabalhos manuais tribais dando importância ao seu conteúdo estético; mas importantes artistas, em princípios do século XIX, particularmente cubistas e expressionistas, se inspiraram naquela denominada arte tribal, especialmente nas mascaras.

No ano 1903 Maurice Vlamick, um paisagista franco-belga, contempla no mostrador de uma Loja de Paris duas estatuas de madeira; surge assim, como por encanto, a apreciação da escultura africana que tão poderosamente ia influenciar na arte moderna. De tratava de esculturas do Congo, como ele e outros artistas ja haviam visto, mas Vlamick, que acertou em ver nelas, com súbita intuição, uma manifestação de arte autentica, convenceu seu proprietário a vendê-las, mostrou-as a seu amigo francês, o pintor Andres Derain, logo foram ver a Henri Matisse, caudilho desse movimento nascente que rompia com os cânones clássicos; essa entrevista, entretanto, não teve a transcendência que logo lhe daria o artista Pablo Picasso.

A arte africana foi especialmente estudada, descobrindo que o artista cria os objetos como espelhos da natureza, sendo uma analogia de imagens naturais; onde a força vital da natureza se entrelaça com o mistério do universo como experiência do homem fora do contexto tribal.

A escultura que é a arte clássica dos povos de raça negra, tem servido como um meio mais obvio e natural para a expressão dos sentimentos e idéias destes povos. Para o artista africano, a arte tem a missão de tornar visível todo o mundo invisível das idéias.

Em Ifé, considerada ainda hoje por muitos yorubas como a Cidade Santa na atual Nigéria, durante os séculos XII e XIII os artistas elevaram a um grau de perfeição a arte do retrato em barro cozido e em bronze à cera perdida. Esta técnica passa a Benin, cujo florescimento se inicia no século XII e onde o bronze ia conhecer um excepcional desenvolvimento ate o século XIII.

Outra forma de arte é a escultura de madeira, neste estilo se destacam as cabeças de tamanhos maiores que a proporção dos corpos, simbolizando o principio diretor dos mitos, onde a cabeça é um símbolo de força sagrada da criação. Sua arte reflete esta variante humanista de suas formas, porque está embasado na idéia de família solidária. Em conclusão, é a partir do artista e de sua obra o que permite ao grupo social recuperar valores da antiga cultura e religião.

Tanto máscaras como estátuas da África são símbolos religiosos com uma função definida e clara na vida de cada povoado, de tal forma que são parte do conjunto do costume, o qual ordenam e regulam e estão sempre associados à ritos religiosos. A mascara representa o tipo de cara da sociedade a qual pertence, desta maneira, o aspecto da mesma tem um significado estritamente iconográfico, simbolizando nas suas figuras relíquias do Poder Sagrado de Deus e da Natureza.

A máscara protege, capta a força vital, se completa com a vestimenta, ainda que seja considerada em alguns casos, a cabeça, como lugar onde reside a força vital. Sua função é reafirmar em intervalos regulares a verdade e a presença dos mitos na vida cotidiana. Assegurar a vida coletiva em todas as suas atividades . Tenta tirar o homem de sua degradação no tempo histórico mediante representações. Que o homem adquira consciência de seu lugar no universo.

O estatuário é a encarnação dos antepassados. São autênticos símbolos que comunicam sua força à coletividade. As cabeças muito desenvolvidas, assim como os umbigos, são pontos importantes para eles. O primeiro por ser onde se encontra a energia espiritual e o segundo por ser o centro vital que une a mãe ao filho.

Os materiais mais empregados são extraídos da natureza, como, a madeira, o ébano, o marfim, a terracota, a ourivesaria em bronze, cobre, ouro, etc. Tem diferentes formas de expressar a arte. A mais antiga é a pintura das paredes e as esculturas nas rochas. Estas formas se encontram no Saara, Sudão e no Leste e Sul da África e em maior medida, nas regiões tropicais. Estas pinturas têm milhões de anos de antiguidade e tem um grande valor para interpretar a historia.



Nos dias 25, 26 e 27 de maio em Colón, Entre Rios, Argentina
Encontro Nacional “Tambores por el Río"

De 25 a 27 de maio será celebrada na cidade de Colón, Entre Rios, o segundo “Encuentro Nacional de Tambores por el Rio” que convoca aos tamborileros de diferentes lugares do país com o objetivo de difundir a cultura afroamericana e apoiar, desde essa iniciativa, ao movimento ecológico que está se desenvolvendo em essa província.


O primeiro Encontro foi organizado em abril de 2006 pela agrupação sambística Samambaia da cidade de Colón; visando impulsionar um despertar ecológico respeito do alto estado de contaminação dos rios, e de vincular grupos de tambores de diferentes lugares do país com a problemática das águas. “A idéia do Encontro principalmente é fomentar a cultura afroamericana, e também é importante que comecemos a nos conectar os tamboreros do país todo, não só da Capital, e desde a cultura apoiar o rio”, diz Teto, impulsor do Encontro aqui em Buenos Aires.
Em La Boca, um grupo de percussionistas e bailarinas de candombe estão organizando festas para arrecadar fundos e alugar um ônibus para poder ir ao Encontro e também “começar a agitar pelo estado em que se encontra o nosso Riachuelo”, acrescenta Teto.
Dizem os que impulsionam este evento que fazem isto “porque existem muitos, demais NÃO ao redor, não à fábrica de papel, não ao pólo petroquímico, não ao câncer, não às malformações... tudo vibra ruim. E então, a idéia deste encontro é dizer SIM, sim ao rio e seus peixes, sim à união latinoamericana, sim à cultura, sim ao tambor!”.


Para contactar-se escrever para gonzalocura@hotmail.com