Editorial
Mundo dá volta, camará!

Dinah

Na capoeira, se fala de um mundo de dentro e de um mundo de fora.
O círculo humano da roda cria uma realidade paralela, no qual o que não está manifesto ganha vida e encontra ai um lugar para expressar-se. Esse é o mundo de dentro.

Aí, os opostos se encontram: o pequeno se faz grande, o tímido se extroverte e até o mais silencioso se faz escutar, as mãos se fazem pés e os pés se fazem mãos. O pior xingamento se converte em uma piada e uma ofensa em um sorriso. Assim funciona, assim é. É um mundo de corpos e de sons, é um mundo natural e humano, com regras, “fundamentos”, para que esse pequeno mundo não se perca uma de suas tantas voltas.

O mundo de fora é o de todos os dias e o de todas as noites. É também um mundo de ciclos, de ordem, em fim, também de fundamento, um fundamento que ficou tão longínquo, esquecido, que nenhuma voz se escuta entre tantas vozes.

É uma roda gigante que enlouqueceu, que perdeu o como, o por quê e o para quê das coisas. Assim, os grandes abusam dos menores, os ricos dos pobres, e uma injustiça se desencadeia atrás da outra. Fruto da lógica desta louca roda é que hoje podemos falar de cultura afroamericana. Não é um detalhe exótico, uma mistura colorida, um mix de raças, é uma realidade histórica e sagrenta.

Talvez, de longe, algum berimbau esteja chamando para nos aproximar da realidade das coisas, para encontrar sua ordem, seu fundamento. Escutando atentamente, talvez uma velha ladainha nos esteja falando ao ouvido de uma história a aprender.


Fania all Stars & Hector Lavoe “Mi gente” en vivo en Africa
Héctor Lavoe
El cantante
Eugenio


Héctor Lavoe cantou, com seu estilo único, a vida dos portorriquenhos que emigravam para Nova York em busca de uma vida melhor, mas que lá encontravam mais marginalidade, violência e desigualdade. Assim ajudou a criar o gênero da salsa e se tornou um ícone nesse estilo. Tem dois monumentos: um em Porto Rico e outro no estado peruano de Callao, onde é considerado Filho Ilustre. Sua vida foi levada ao teatro e duas vezes ao cinema.

Héctor Lavoe (1946-1993), conhecido como “O Cantor dos Cantores” nasceu em uma família humilde em Ponce, Porto Rico. Aos 14 anos já cantava para seu povo e aos 17 viaja para Nova York para buscar fortuna.

Como todos os imigrantes, conseguiu trabalhos precários, mas nas noites recorría os salões de baile da cidade. No Club Tropicoro conheceu Johnny Pacheco, que o apresentou a Willie Colón, que procurava um cantor para seu primeiro disco “El Malo”.

Seu estilo de rua e desafiante complementava perfeitamente a música inovadora e desafiante de Willie Colón (chamavam-nos de “The Bad Boys”). Entre 1967 e 1973, Lavoe e Colón produziram discos de muita importância para o desenvolvimento da salsa como gênero.

Lavoe começa a formar parte da bohemia de Nova York e começa a consumir muito alcool e a injetar heroína. Em 1973 Willie Colón decide continuar sua carreira solo, deixando a banda com Lavoe. (Logo Willie Colón faria outra dupla explosiva com Rúben Blades).

Em 1975 Lavoe inicia sua carreira solo e também participa nas turnês da Fania All Stars. Em 1978 grava “Comédia”, um de seus discos mais famosos, com temas como “La Verdad”, “Comedia” e “El Cantante” (escrito por Ruben Blades).

Lavoe foi um cantor “sui generis” por que nunca imitou a ningém, foi único em sua classe, da categoria de Ismael Rivera e Benny More”. (Tito Curet Alonso)

Nos anos 80 sua vida se torna trágica: fratura as duas pernas ao saltar pela janela de seu apartamento que se incendiava, tem graves problemas com vícios e lhe sucedem várias desgraças familiares. Hector Lavoe se converte em um homem depressivo e frágil.

Em 1988, depois da suspensão de um show, se atira do nono andar de um edifício. Não morre na queda e ainda em estado de paralisia parcial tem que cumprir com alguns shows. Ao final dos anos 80, descobre que tem AIDS. Vive seus últimos anos sem dinheiro, sobrevivendo com a ajuda de seus amigos.


Fania all Stars

Os filmes

Marc Anthony ia ser protagonista da película portorriquenha “The Singer” fazendo o papel de Lavoe, mas colocou como condição cantar com sua própria voz. Como isso não foi aceito pelos produtores, Marc Anthony decide associar-se com sua esposa Jennifer Lopez e fazem seu próprio filme, “El Cantante”, com verbas milhonárias e no estilo de Hollywood.
O filme recebeu muitas críticas. Willie Colón diz que conta apenas “da história de dois drogados portorriquenhos”. Logo depois, estreou “The Singer”, feito com verbas modestas, falada em castellano e com uma direção menis efeitista.


El Cantante(2006) www.imdb.com
The Singer (2007) www.imdb.com

linguagem simbólica e a oralidade no ritual
do Candombe em Minas Gerais

A Memória na Palavra
Edimilson de Almeida Pereira

O Candombe é um ritual de canto e dança originalmente religiosos, que ocorre em Minas Gerais e se completa com a presença de instrumentos sagrados (três tambores: uma puíta - espécie de cuíca rústica em madeira; e um guaiá - chocalho de cipó trançado sobre cabaça, contendo contas de lágrimas de Nossa Senhora ou sementes similares).

Os cantos são geralmente enigmáticos, construídos segundo uma linguagem simbólica que remete aos mistérios sagrados e estabelece uma crônica dos acontecimentos que marcam a vida dos grupos responsáveis pelo ritual. A dança consiste em movimentos da pessoa que está conduzindo o canto em determinado momento. Não há formação especial dos acompanhantes para indicar uma coreografia coletiva.

Vez por outra, dois dançantes contracenam diante dos tambores. Os gestos se tornam circunstanciais dependendo da criatividade do dançante e das evocações do canto, cujas palavras o corpo reduplica ou não. Pode-se dizer mesmo que o candombeiro dança para os tambores, movendo-se em direção a eles, ora aproximando-se, ora recuando; o corpo se contorce em direção ao chão e se eleva, alternadamente: essa é a linha motriz da dança no Candombe. O ritual, em certa perspectiva, é também uma dança comandada pelos tambores e a eles dirigida.

O Candombe é vivenciado por pessoas pobres, residentes em áreas rurais ou na periferia dos centros urbanos. As expectativas sociais e as organizações éticas dessas pessoas transparecem nos cantos, gestos e histórias sagradas que formam a mitologia do Candombe. O ritual faz parte de um conjunto social em que a religiosidade atua como força instituidora da realidade. O homo religiosus que realiza o Candombe transporta para a esfera social exemplos recebidos no contato com os ancestrais. De modo inverso, ocorrem no ritual referências a fatos da esfera social traduzidos na linguagem simbólica do sagrado.

As pessoas que praticam o Candombe o entendem como um modelo cultural herdado dos ancestrais, isto é, como uma visão de mundo que propõe (e, em alguns casos, impõe), justificando, uma certa maneira de viver. O Candombe não se resume aos limites das sessões em que é cantado e dançado pois, por um lado, suas mensagens são projetadas para outros setores da vida (o trabalho, o lazer) e, por outro, as mensagens exteriores são incorporadas à sua organização ritual. O valor social do Candombe decorre da influência que ele exerce sobre o modo de pensar das pessoas e do grupo. Essa influência terá sido maior no passado, quando o ritual estava mais completo (porque próximo das origens) e o sagrado atuava decisivamente como força instituinte da sociedade.

O ritual privilegia, simultaneamente, a linguagem verbal (cantos, narrativas) e a linguagem gestual (dança). A dinâmica do Candombe consiste em agir (dançar) e falar (cantar), um agir-falar de (antepassados, desafios, louvações, etc.) e um agir-falar para (a comunidade). A manutenção do ritual depende da capacidade de seus praticantes em comunicar valores e fatos que sejam interessantes para o grupo. O grupo, por sua vez, se preocupa em reforçar o prestígio do ritual na medida em que vê nele um porta-voz das aspirações coletivas. Nesse sentido, o uso da linguagem simbólica e da oralidade, como veremos a seguir, se torna uma prática corrente entre os devotos. É através destes recursos (associados à dança e às representações dramáticas) que as sagas dos candombeiros e a história de segmentos expressivos da cultura afro-brasileira são intercambiados entre diferentes gerações.


Linguagem simbólica

A linguagem do Candombe constituiu um repertório do conhecimento de mundo trazido ao Brasil pelos negros procedentes de diferentes áreas do continente africano e reelaborado à luz de novas condições histórico-sociais. As particularidades desse conhecimento levaram à formulação de uma linguagem identificadora do homem que a utilizava. Para manter os laços com suas tradições, o homem negro teve de encontrar meios específicos para expressá-las, evitando muitas vezes o uso da linguagem cujo significado podia ser apreendido mais imediatamente. As perseguições resultantes de uma sociedade violenta e a necessidade de criar sistemas de autodefesa fizeram com que os negros reconstruíssem sua linguagem com recursos que lhes permitissem estabelecer a comunicação entre si e vedar o acesso de estranhos a essa comunicação.

Na vivência religiosa, essa linguagem, que chamaremos de simbólica, predominou. A linguagem simbólica que estamos considerando é uma realização verbal (palavra) que procede da interpretação de mundo baseada no sagrado. É a linguagem imantada do mito, portadora da força que inaugura as realidades materiais e imateriais. A raiz dessa linguagem é a metáfora. Porém, não se trata da metáfora simples, que torna possível a uma palavra ocupar um campo de significação que não é o do objeto nomeado por ela. Em geral, a mudança do campo de significação da palavra acontece por causa de alguma semelhança ou analogia existentes entre os objetos nomeados.

A linguagem simbólica contribui para o processo de resistência pelo sagrado desenvolvido pelos afro-brasileiros. Trata-se de uma modalidade de linguagem para ocasiões restritas e, caso seja usada no cotidiano, ainda assim estará cercada de cuidados. As representações tecidas a partir e em torno dessa linguagem ganham maior importância quando ela é tomada como um patrimônio que ajuda a delinear a identidade do grupo que a emprega. Nesse momento decisivo, a linguagem simbólica recebe nomes que viabilizam a sua aparição pública: os devotos se referem a ela como língua de preto, língua

de nego da costa, latim de preto, língua de jongo, língua de Angola, etc. Os significados da linguagem simbólica ultrapassam a esfera do mundo profano, pertencem ao mundo das coisas sagradas, "aquelas que os interditos protegem e isolam" (DURKEIM, 1989:72). Por estarem assim protegidos, esses significados são utilizados pelos candombeiros como objeto privilegiado nas trocas sociais: "os de fora" vencem os devotos em diversos setores da vida material (já que a maioria dos afro-brasileiros faz parte das camadas mais pobres da população), mas são vencidos no sagrado porque não possuem as chaves que abrem as portas dos mistérios da vivência religiosa.

Este artigo é parte do livro Os tambores estão frios: herança cultural e sincretismo religioso no ritual de Candombe. Belo Horizonte: Mazza Edições; Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2005, 624 p. Fotos de www.familiaaventura.com.br

Libro / Disco
El genocidio del que no se habla
Guerra na República Democrática do Congo

A República Democrática do Congo (RDC) é um país imensamente rico em recursos naturais ainda não explorados (ouro, diamantes, cobalto, petróleo, gás natural, urânio...). Por exemplo: a média mundial de extração de ouro em uma mina é de 11g., na RDC se chega a 6 Kg e em algumas zonas até 18 Kg; no leste abundam minerais raros de alto valor estratégico para a tecnologia de ponta (casiterita, europio, thorio, germanio).

Além disso, é um país enorme e situado estratégicamente no centro da África. É o passo para controlar o cone sul africano. Por isso, há uma guerra encoberta pelos EUA para controlá-lo. Nessa guerra, foram usados os países vizinhos (Uganda, Ruanda e Burundi) para invadi-lo e saqueá-lo. Por desgraça, às custas da morte de 4 milhões de congolenhos e do silêncio internacional, já que certos países europeus também estão implicados.

O livro “O Genocídio de que não se fala: Guerra na República Democrática do Congo”, proporciona a informação e reflexão de diversos autores a partir de pequenas introduções e uma cuidadosa seleção de artigos realizada por José García Botía. Não explica tudo, é um assunto complexo e com muitos matizes. Pretende decifrar os principais pontos chave para entender o conflito e o resto de contínuos conflitos nessa região da África Central.

Nos ajuda a entender algumas das principais causas e vontades que estão impedindo que a África possa sair da miséria. Além disso, contamos com as vivências de Mariví Garbayo (30 anos em Kivu, o leste rico e massacrado da RDC) que nos transmite de forma poética. Um conto (escrito por José García Botía e ilustrado por Fernando Bernabé) nos explica muito bem todas as questões chave desse conflito.

O livro termina com uma Guia Didática realizada por Juan Carlos Garcia Domene, que nos oferece apontamentos sobre os diversos temas que podemos tratar a partir desses materiais e dos que aparecem no disco. É um livro de 140 páginas preciosamente diagramado por Diego Lizán e muito bem ilustrado com desenhos de Rocío Pérez (de 13 anos), Fernando Bernabé (Nano), fotos de Juan Carlos Tomasi, José A. Atencia.

As 13 canções do disco “O Congo grita, Africa Grita: Tambores para a esperança persistente”, compostas por Domingo Pérez e interpretadas pelo grupo Veredas e pelo grupo de Burkina Fasso Segtaba Percusión,
estão criadas especificamente para este projeto e nos impregnarão e farão ecoar estes contrasentidos no nosso interior, transmitindo dor e tentando deixar um gosto de esperança, de esperança que persiste. Junto a elas, há uma faixa interativa com três montagens e os playbacks em MP3 da música que foi acompanhamento no disco.

www.umoya.org (Comitê de solidaridade con a África Negra)

Campinho da Independência, Paraty / Brasil
Breve História de um Quilombo

Gabriela Azcoaga Klett

O Quilombo Campinho da Independência poderia ser qualquer pequeno povoado no campo, um grupo de casas onde todos são parentes que vivem do trabalho da terra e sofrem o êxodo dos jovens para as cidades. Mas seus moradores propuseram a si mesmos uma reivindicação, uma tarefa neste vasto universo que é o Brasil.

E...que significa Quilombo? Procurando nos livros de história brasileiros, nada com esse nome aparece. Então, sabendo que quem criou tal coisa foram os africanos na Latinoamérica, buscamos nos livros as palavras “negros” ou “escravos”, palavras que os identificavam, e lemos como eles afetavam a política e a economia dos europeus: “cafezais“, comércio de escravos”, “produção de escravos”, “produção de açúcar”, “abolição”.

Já sabemos a esta altura que nossos livrs de história contam a história dos europeus em nossos países. Mas então, quem conta a historia dos africanos trazidos para cá?

O Quilombo do Campinho teve uma origem diferente dos outros Quilombos, fundados por homens e mulheres que fugiam da escravidão. Segundo conta história, foram três mulheres que receberam do fazendeiro liberdade e algumas belas terras ao sul do estado do Rio de Janeiro, muito próximo de Parati, porto onde terminava a “rota do ouro”.
(E por ai ainda há ouro escondido – me conta Ana Claudia, uma moça de 30 anos. Seu avô Pequenino dizia que havia que buscá-lo ali onde cai a estrela cadente).

Hoje em dia, quem anda pela estrada no litoral entre São Paulo e Rio de Janeiro pode entrar para conhecer o Quilombo. Encontrará uma escola, uma igreja, umas casinhas agrupadas que já passaram do barro aos azulejos. E também uma casa de artesanatos que ainda é de cana e barro. Dentro dos artesanatos, feitas segundo uma velha tradição de tecido de juncos, uma tradição que soube cruzar o mar.

Um pouco mais afastadaestá a Casa de Farinha, onde se mói o grão. Há um bar, uma pousada e um campo de futebol, que dá nome ao lugar. E, margeando, está o rio e a praça onde brincam as crianças, cuidando umas das outras.

(Na hora de voltar para casa, uma menininha quer continuar brincando. A priminha maior conta a ela então do mascarado que chega suando de tanto correr atrás das crianças).

Andando ao entardecer, quem anda por ali pode encontrar-se com Dona Maria, uma senhora velhinha, alta e magra. A essa hora, conta ela, todos se reuniam e seu marido, Pequenino, tocava violão. Dona Maria mostra as casas. Em todas vivem seus filhos e netos. Pergunto a ela de sua mãe (querendo saber da história): - “Ela dizia que é preciso trabalhar muito para poder comer” – e esse é o legado das matriarcas, trabalhar e valorizar a terra, por que alguma vez elas já a tiveram e souberam que aquilo que era natural poderia terminar abruptamente.

Na grande família, um certo orgulho. E uma organização que os excede, nascida de uma primeira luta política da comunidade nos anos 70: os títulos das terras.

Hoje em dia a luta continua, para contar a história, para retomar a história. Para reavivar aquilo que estava adormecido, com oficinas de Jongo (percussão e dança), Capoeira, Batucada. Com o fomento do artesanato, as mulheres se reúnem para tecer galinhas D’Angola, cestas, peixes, e suas mãos se transformam em mãos de milhares de mulheres ao longo de centenas ou milhares de anos. E com a festa de São Benedito, o santo negro, uma festa que dura uma semana e que reúne as tradições, então a identidade das pessoas que foram educadas no catolicismo, se abre um espaço a esta outra identidade, que não é apenas cor da pele ou tipo de cabelo, é também costumes, culturas, ensinamentos e alternativas para nosso presente.

Trad. Vânia Medeiros