máscaras
Por Dinah
A máscara disfarça, oculta, mas também revela a identidade de quem a usa. O mascarado diz mais de si mesmo do que gostaria. Por sua própria capacidade de ocultar dizendo, a máscara desvela, aclara o que busca ensombrescer.
Quem – pergunto – não se encontrou uma e mil vezes com belas máscaras, que quando começam a cair-se, como o reboque de uma velha parede, mostram a umidade, a velhice, a tristeza... A tristeza é o que sempre se encontra detrás de uma careta, e por que não dizer, também uma enorme porção de dor.
Quem ingenuamente assiste o espetáculo das máscaras, passado o brilho e a cor, nos encontramos sim, com a melancólica decadência e a lenta queda de realidades virtuais que, virtuosamente, construiram para nós, os mascarados.
Espelhos de cores, radiantes discursos, fachadas … virtuosos da mentira se enrolam em suas próprias histórias que caem rapidamente. Tem pernas curtas, se diz da mentira, e por algo será.
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João Bosco en Argentina
Um músico da Intuição
Enrique Yañez
A ficha ténica diria que João Bosco é um dos mais grandes artistas do Brasil, de projeção internacional, nascido no estado de minas gerais, formado em engenharia cinvil e dono de clássicos do acervo musical brasileiro como “Papel Marché”, “Jade”, “O bêbado e o equilibrista”, “Kid Cavaquinho”, “De frente por crime” e muitos outros. Pas longe de falar das glórias de sua carreira, hospedado em um hotel da Avenida de Mayo, às vésperas de sua apresentação no Ateneo, Bosco fala com veemência da visão da realidade em seu país, do compromisso e do valor da arte como veículo de expressão.
Enrique: Entre tantas músicas compostas, há uma muito espacial, que se tornou hino, pelo contexto em que foi criada e por tudo que significou: “O Bêbado e o Equilibrista” (Joao Bosco / Aldir Blanc). Isso criou para você um compromisso maior com o social ou você sentiu que as pessoas esperavam isso de você?
João: Na realidade é ao contrário, o compromisso já estava posto e por isso surgiu a música. “O Bêbado...” foi um tema inspirado e composto na época em que morreu Charlie Chaplin (“me lembrou Carlitos...”) e também na época que que se avistava a saída democrática. A versão na qual eu suponho que tenha havido mais sentido, mais vigor e que, sem dúvidas fi a definitiva, é a de Elis Regina, pela situaão pessoal dela naquele momento, por toda uma conjugação de fatores e, claro, pela grande intérprete que era Elis. Eu disse que foi inspirada em Chaplin por que eu acredito que foi um artista que também esteve do lado dos desfavorecidos, como dissemos aqui, alguém que teve um compromisso. Não era uma questão política, nã tinha essa conotação, mas possuia uma visão “social” de toda a situação que o Brasil esava vivendo naquele momento.
E: “quem sonha com a volta do irmão do Henfil “, pode ver nos trabalhos sociais que vão se desenvolendo o Brasil, como no caso da Rocinha, a continuação desses ideais?
J: Sem dúvida. Essa frase alude a Betinho, irmão de Henfil – artista gráfico e desenhista – que era sociólogo e estava exilado. Foi ideólogo de tntos projetos sociais no Brasil, ele havia tirado ma “radiografia” da situação imperante e havia advertido sobre a necessidade do compromisso de todos com a reestruturação da sociedade. Existe um belo poema de João Cabral de Mello Neto que diz que o canto de um galo sozinho não faz uma manhã, são necessários muitos galos, muitos cantos, então, deste modo, se no Rio, em cada ponto de cada morro, em toda a cidade e em todos os pontos do país houvesse um galo cantando, as coisas poderia mudar muito mais. (durante a entrevista, Bosco citou reiteradamente essa imagem). Não há lugar para o individualismo, é necessário o apoio de todos. O esforço ilhado não serve. Não se pode ser feliz de maneira individual. Existem muitas coisas sendo feitas, em muitos lugares, como na escola de música da Rocinha – a favela mais antiga do Rio de Janeiro – que inclusive estão patrocinadas, recebem apoios, mas seu objetivo vai muito além do político, é independente, tem a ver com um sentimento muito maior, com a arte, como tudo aqilo que você pode perceber no outro, de tudo que está passando e da necessidade de expressão.
E: A participação ativa de um artista já consagrado, como em seu caso, na gravação de um CD, como a que realizou um grupo justamente saido desta escola de música – BanDaCapo, interessantíssimo grupo surgido da favela que gravou um CD sobre a música de João Bosco – tem antecedentes?
J: Não que eu saiba. A idéia era fazer um disco sem todas as exigências técnicas e comerciaia que normalmente se aplicam, a precisão e tudo isso, para poder dar direito de expressão gente que pode ter outra alternativa que a de cair no narcotráfico ou na violência e poder, desde o que cada um pode fazer, a ter uma vida mais digna, estimularlos, tudo isso não me custa absolutamente nada e me faz muito feliz poder ajudar esse projeto, a idéia é que sirva de ponto de partida pra que se façam coisas semelhantes.
E: Indo para o musical estritamente, você pode convidr a asue shows guitarristas como Yamandú Costa, Guinga, que são “montros” do instrumento, não obstante, sua pegada segue sendo única, muito característica, uma forma de tocar muito reconhecível. Isso foi um processo natural ou você teve alguma formação especial?
J: Não, tudo o que faço na música, absolutamente tudo é intuitivo. Nunca estudei musica, não fui a uma escola de música, tudo foi criado e formado nos elementos populares, que é onde tenho minha raiz e compromisso. Toda minha música é feita com o que busquei na rua e ai é onde está meu interesse.
E: Quantas vezes você já esteve na Argentina?
J: Essa é a terceita vez, a primeira estive no La Trastienda, com uma banda formada por Nico Assumpção – um dos maiores contrabaixistas que o Brasil já teve, já falecido –, por Robertinho da Silva na bateria, Armando Marcal na percussão e Ricardo Silveira nas guitarras. A segunda fiz um show no Gran Rex jno com Diana Krall e agora vim sozinho com meu violão ao teatro Ateneo, que é menor. Desfruto muito de tocar só meu instumento, é algo que sempre gostei.
www.joaobosco.com.br
Agradeço especialmente a Gilberto Figueiredo, que possibilitou a realização desta entrevista.
Enrique Yáñez é músico, guitarrista, e dirige junto a Fernanda Nevile o projeto "Swing Bossa" www.myspace.com/swingbossa2 y www.swing-bossa.com.ar
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A capoeira é mesmo brasileira?
························································ Jacques Gomes Filho
É impossível saber qual é a origem exata desta arte. Há mais de 300 anos, a capoeira vem sendo saqueada, assim como todas as manifestações afro-americanas. Agora, por ironia do destino, a modernidade que tanto sufocou a cultura dos negros ajuda a recontar parte de sua história e a jogar luz neste tema polêmico. Na internet, pelo menos um exemplo sugerem que a capoeira pode não ser tão verde-amarela assim.
No Brasil essa questão praticamente não existe. Nenhum capoeirista, do Oiapoque ao Chuí, discute se essa arte é ou não produto da criatividade tupiniquim - elaborado a partir da efervecência das diferentes culturas africanas forçadas a sobreviver num meio opressor. E de fato, foi nas senzalas e quilombos brasileiros que ela se desenvolveu e se tornou conhecida. Depois, se institucionalizou nas escolas da Bahia e ganhou o mundo no formato que a conhecemos, com a etiqueta MADE IN BRAZIL.
Mas a presença cada vez maior de capoeiristas mundo afora criou a necessidade de se discutir as raízes da luta. Só na Argentina já são dezenas de milhares de praticantes, segundo cálculos da Associação Argentina de Capoeira. O próprio nome "capoeira" não é nem brasileiro nem africano - é indígena e põe em xeque ainda mais essa questionável paternidade. Significa "mato ralo", "roça abandonada", "gaiola grande", depende do dicionário. Como acontece com qualquer estrangeiro radicado fora do país, ela agora quer saber quais as suas origens.
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Um das respostas pode estar no site de videos YOUTUBE. Tem Cabeçada, Rasteira, Meia-Lua de frente, de costas e até algo parecido com a Chamada de Angola. São os movimentos de um jogo gravado nas ilhas da Jamaica e Martinica, em 1932 - bem longe do Brasil. Mandinga e malandragem é o que não faltam aos praticantes desta arte conhecida como Ag`ya - Ladja ou ainda Danmye. Até o cenário e as roupas de marinheiro lembram o figurinho que imortalizou Salvador como o berço da capoeira. |
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Num outro vídeo, ainda mais semelhança. A apropriação e releitura dessa dança caribenha levou aos palcos dos Estados Unidos e da Europa, nos anos 40, um espetáculo com Aú e Queixada. A coreógrafa e bailarina norte-americana Katherine Dunham passou parte da vida buscando suas origens africanas nessa dança. Bem ao estilo de Mestre Pastinha, ela é considerada a guardiã da Ag`ya, essa dança embalada pelos tambores das Antilhas que simula um combate mortal e invoca o Rei dos Zumbis.
Salvador vai continuar sendo considerada o berço da capoeira, porque ali o jogo se fez em regras e tradições que continuam bem guardadas. E também porque - justiça seja feita - é onde existe a maior concentração de bons capoeiristas por metro quadrado. Mas a referência clássica do N'Golo - ou Dança da Zebra - sendo encantada pelo toque de Midas dos mestres bahianos já não saciar os espíritos mandingueros mais inquietos fora do Brasil. Talvez porque para eles o que menos importa é se o nome se chama Ag`ya, Ladja ou capoeira, se nasceu na Jamaica ou na Bahia. Importante mesmo é saber que veio tudo no porão do mesmo navio negreiro, que ainda não parou de atracar em portos do mundo inteiro.
Afinal, como dizia Mestre Pastinha, "cada um é cada um" e cada jogo é diferente do outro, não importa a etiqueta.
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Arte na favela
A Rocinha
Enrique Yañez
A Rocinha é a maior favela do Rio de Janeiro e também a mais populosa de todo o Brasil. Neste imenso bairro de 150 mil habitantes funciona a escola de Arte da Rocinha, um projeto apaixonado que entusiasma, onde se ensina arte, computação, idiomas e muitas outras coisas, Desta escola, entre tantas outras coisas, nasceu a BanDaCapo, um grupo que com sua música chegou a Alemanha. Ai vai a crônica de nossa visita à Rocinha.
Então pergunta: Que lugar do Rio vocês ainda não conhecem e querem conhecer?
- Rocinha!
A resposta é piada, obviamente, porque, apesar de ser certo que desejamos conhecer a maior favela do Brasil, também é certo que até ali estamos nos dirigindo, para isso mesmo nos encontramos nessa esquina de Copacabana, mas a pergunta aponta a qal caminho podemos tomar para seguir conhecendo novos lugares. Gilberto conduz com destreza, como quase todos os cariocas. O caminho pode serpentear, ficar subutamente estreito ou escarpado, pode encontrarse com um ônibus na frente, as luzes altas que ele, não obstante passará, tranquilo, quase “tirando tinta”, uma espécie de Romário no volante. Deixamos para trás o estúdio de Gilberto Gil na Gávea, continuamos subindo, quando de repente, o caminho se abre, então, nosso amigo, guia e protagonista desta história, nos explica que para um lado segue o caminho da Gávea, uma zona exclusiva a esta altura e pelo outro, drásticamente, dramáticamente, começa o caminho da favela.
Mas não há perigo, talvez a rocinha seja mais segura que o Leblon, bairro mais cotado da zona Sul do Rio de Janeiro. Ali, nos explicaram, os traficantes exercem uma espécie de “protetorado”, são menos frequentes os episódios de roubo, diminui o delito que, monopolicamente detêem, desde as sombras e desde sempre os traficantes. Então os problemas chegam quando as quadrilhas rivais entram em conflito. Mas esperamos que isso não ocorra.
Tal como alguma vez havíamos visto na televisão, a Rocinha, ao menos a parte baixa, ao menos em sa rua principal, não se diferencia em quase nada de m bairro humilde de Buenos Aires: tem luz elétrica, há pequenas lojas, alguma bicicleteria e até um ônibus de linha. Também estão os “mototaxis”, que te levam para a parte de cima. Cachorros magros soltos. E do caminho principal saem becos que nos levam a moradias precarias, onde so pode passar um por vez de tão estreito. Nosso carro começa a falhar e temos que parar de um lado da rua entre dezenas de homens e mulheres que conversam, sobem, descem e gritam de um lado a outro, ou tomam cerveja, ou trazem a comida.
“Nossos amigos argentinos querem emoções fortes mas não tantas” – dirá Marianna Leporace – mulher e companheira de Gilberto, nosso guia na favela. Marianna, como seu esposo, é musica e canta. Gilberto, além de músico e professor, tem sob sua responsabilidade a coordenação geral do projeto de que vamos ser testemunhas: a Escola de Música da Rocinha.
Finalmente chegamos ao edifício da prefeitura, onde funciona a Escola de Arte da Rocinha. Dai saiu a BanDaCapo, grupo que gravou um CD sobre a música de João Bosco – com participação do próprio Bosco – e que chegou a tocar na Alemanha. Sobre isto nos conta Gilberto:
Enrique: Da Rocinha a Alemanha …
Gilberto: Tudo começou em 1994 quando o professor Hans Koch, utilizando recursos próprios, criou a EMR. Ele conseguiu uma sala emprestada pela Igreja Metodista da Rocinha e recebeu alguns instrumentos doados pelo São Conrado Fashion Mall, shopping center que fica num bairro de classe alta vizinho à Rocinha. Inicialmente a escola oferecia aulas de Flauta Doce a 14 alunos e um ano depois ampliou sua ação oferecendo também aulas de Violão, Teclado e Canto Coral. Ano a ano foi crescendo o número de alunos e novos cursos foram sendo criados. Hoje a escola atende a mais de 500 alunos em cursos também de Percussão, Cavaquinho, Clarinete, Saxofone, Flauta Transversa, Musicalização e Prática de Conjunto.
Um desses cursos, o de Prática de Conjunto, pode ser considerado o mais importantes da nossa proposta pedagógica. É nele que vários grupos se formam para a produção de trabalhos com vistas à apresentações públicas, e isso fez com que, a partir de 2000, além de sua ação sócio-pedagógica, a escola passasse a ter uma produção artística muito intensa e de grande qualidade.
E: O lado mais escuro da favela ja é vem conhecido - e divulgado - pelos jornais, pelo cinema - caso " cidade de Deus" ou "pixote" ....... mais sempre tem outra esperanza , outro projeto, né ?
G: Sim, aqui na Rocinha, como também nas outras favelas, quase 100% da população é formada por pessoas íntegras, trabalhadoras, pessoas que vivem honestamente e que lutam muito para conseguir viver com dignidade. Mas existe uma minoria que está vinculada ao tráfico e ao crime organizado que é muito poderosa. Infelizmente a mídia costuma dar muita ênfase as notícias relacionadas a essa minoria e divulga muito pouco as ações positivas que acontecem nas favelas, e com isso ajuda a criar junto à sociedade uma imagem muito negativa dessas comunidades.
É importante contar tudo isso, e contar também que nas favelas há carência de infraestrutura em todos os aspectos, mas tem que se ter o cuidado de não destruir a imagem dos seus moradores que como já disse são, em grande maioria, pessoas íntegras e trabalhadoras.

Carlson Barros, Pedro Evan, Michele Castro, Gustavo Villas-Boas e Leo Mendonça
E:Tem um excelente CD de um grupo formado na Rocinha, a BanDacapo, onde tocam a musica do Joao Bosco, e onde "o mestre" também colabora...
G: O pessoal da BanDaCapo já acumula uma importante experiência. Em 2003 o grupo gravou seu primeiro CD que foi fabricado na Alemanha e vendido durante uma turnê que o grupo fez em 17 cidades daquele país. Foram 25 shows e quase 1000 Cds vendidos. Na época o grupo se chamava “Seis Que Sabem”, nome que teve que ser mudado porque descobrimos outro grupo com o mesmo nome aqui no Rio de Janeiro. Desde então o grupo fez muitos shows e em 2005 gravou seu segundo CD “BanDaCapo Canta João Bosco”. Hoje, além desse grupo, temos também o “Chorando à Toa”, grupo que tem feito muitos shows aqui no Rio apresentando repertório de choro e samba tradicional. Esse grupo deve gravar seu primeiro CD no ano que vem, provavelmente com repertório de músicas inéditas. É importante ressaltar que a profissionalização desses grupos gera renda para os jovens e gera recursos para o projeto, visto que o dinheiro arrecadado com cachês é dividido entre os músicos e a escola, ajudando na manutenção das atividades.
www.emrocinha.org.br
www.youtube.com/watch?v=PBw8sATFkIw
Enrique Yáñez é músico, guitarrista, e dirige junto a Fernanda Nevile o projeto "Swing Bossa" www.myspace.com/swingbossa2 y www.swing-bossa.com.ar |
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Uruguai / Comunicado pela preservação do patrimônio histórico
Conventillo de Ansina
Diante das resoluções adotadas pelas autoridades municipais e nacionais sobre a emblemática zona de “Ansina”, Patrimônio da Cultura Afrouruguaia” e monument histórico nacional, as organizações e referentes afrodescendentes expressamos:
1 – Nosso mal estar e profunda preocupação pelo futuro do prédio em que se encontra a construção sobrevivente do histórico “Conventillo de Ansina” na rua Lorenzo Carnelli entre San Salvador e Isla de Flores, e pelo destino das famílias expulsadas do lugar durante a Ditadura, que conformam o empreendimento UFAMA PALERMO ZONA SUR KAMBE que planeja a volta ao bairro mediante o realojamento em uma cooperativa de moradores Covireus, que pretende a demolição total ou parcial dos restos de “Ansina”.
2 – Os padrões correspondentes ao prédio do “Conventillo Ansina” são monmento histórico, declarado pelas resoluções 1941/975 e 293/96 por proposta da comissão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Nação, de acordo com a lei 14.040 que protege os bens móveis e imóveis vinculados a acontecimentos relevantes à evolução histórica nacional, a personagens notáveis da vida do país ou ao que seja representativo da cultura de uma época nacional”. O artigo 5º de tal lei estabelece em seu artigo 11º com clareza que “Não se dará trâmite a nenhuma soliciação de permissão para obras e demolições referentes a tais bens, sem que conste a aprovação prévia por parte da comissão”.
3 – O Conventillo Medio Mundo”, brutalmente desalojado e demolido e o “Conventillo de Ansina”, são símbolos indiscutíveis dos bairros Sul e Palermo, da cultura Afrouruguaia e do Candombe, que floresceram nestes lugares históricos e constituem um verdadeiro patrimônio da cidade de Montevideo e de tedo o país que as autoridades e a sociedade devem preservar e recriar como uma capital de todos os uruguaios e uruguaias, muito valorizado por aqueles que os visitam, ainda que não tenha prosperado nenhum dos projetos para preservar e recriar o acervo da cultura afrouruguaia.
4 – Os desalojamentos dos Conventillos dos “bairros negros” e a destruição das edificações que impediram o retorno de sua gente a seus lugares de origem, destruindo por sua vez o patrimônio cultural que representavam, foi uma clara violação dos direitos humanos perpetrada pela ditadura. Deve incorporarse à memória coletiva com o destaque que merece como crime de lesa humanidade que afetou fundamentalmente aos afrodescendentes e como um dos atos mais ostensivos de racismo da história contemporânea, justificado por aqueles que afirmavam que “os negros” e seus tambores empobreciam a cidade e não poderiam viver no centro de Montevideo prejudicando seu particular atrativo turistico e imobiliário.
Este e outros atos com profundas consequências sociais para nossa comunidade deve ser reparado com ações específicas do Estado, destinando políticas públicas de ação positiva para combater tanto a discriminação como seus efeitos. Com vontade política e poucos recursos o governo municipal e nacional pode desenvolver uma ação histórica que marque um antes e depois na relação do Estado e da sociedade uruguaia com nossa comunidade: respaldo a uma cooperativa integrada por famílias desalojadas, majoritariamente afrodescendentes, para permitir sua volta aos bairros e aos que pertencem; assim como a preservação e restauração de seu patrimônio cultural apoiando seu desenvolvimento, em especial nos bairros Sur e Palermo, cenário das lendárias “Chamadas” por Isla de Flores, que tem um enorme potencial se a ela forem destinados os recursos e infraestruturas necessárias.
5 – Reclamamos direitos legítimos consagrados em compromissos assumidos pelo Uruguai diante das Nações Unidas e outros organismos internacionais e na legislação nacional. A lei 18.059 declara de interesse nacional a realização de atividades, ações educativas e campanhas de comunicação que contribuam com a valorização e difusão da cultura afrouruguaia, promovam o combate ao racismo e a igualdade racial, entendida como garantia de igualdade de oportunidades e gozo efetivo dos direitos para todos os cidadãos, com a conseguinte superação das inequidades que afetam os afrodescendentes; e estabelece que o Estado proverá a realização desses fins mediante o desenvolvimento de políticas públicas destinadas ao cumprimento dos princípios estabelecidos por esta lei.
Por sua vez, o informe sobre “Percepção de Discriminação e Exclusão” na área metropolitava, do Observatorio Social da Intendencia Municipal de Montevideo concluiu que, consultados, os 44% da população se declara racista o algo racista e colocou os afrodescendentes entre os 4 grupos mais discriminados.
6 – A realidade, constatada em recentes estudos oficiais evidancia a necessidade de avançar nesse sentido. A Pesquisa de Lares Ampliada 2007, do Instituto nacional de Estatística, em seu estudo sobre as condições de vida dos afrouruguaios, confirma a inequidade existente, registrando niveis de pobreza, indigência, desvantagem em matéria de empregos, oportunidades, educação e moradia, superiores para o resto da população.
7 – Estamos em um momento histórico particularmente propício para avançar nesses temas, no marco de um governo que priorizou o desenvolvimento de políticas de igualdade, em um ano em que Montevideo é a capital da Coalizão de Cidades contra o Racismo, e onde se celebrará o Dia do Patrimônio dedicado à cultura afro descendente e três de suas principais figuras.
Confiamos que com a solidariedade e esforço de todos possamos aproveitar esta oportunidade para benefício de toda sociedade uruguaia.
Assinam este comunicado: Organizaciones Mundo Afro / ACSUN (asociación cultural y social uruguay negro) / CECUPI (centro cultural por la paz y la integración) / UAFRO (universitarios y técnicos afrouruguayos) / Africanìa / ADACAU (asociación para el desarrollo del arte y la cultura afrourugayos) / AUDECA (asociación uruguaya de candombe) / Asociación Cultural Zona Sur Kambé.
Imagen: "Conventillo de Ansina" Fernando Gómez Germano, de www.candombe.com
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