Editorial
Zumbí
Dinah
Chega novembro e a figura do líder do Quilombo dos Palmares começa a propagar-se como um eco antigo de lutas distantes, de resistências atuais, de injustiças permanentes. Como o aroma de flores em uma noite de verão, Palmares nos traz algo do sonho de liberdade, tão desacreditado, tão esvaziado nestes dias.
Que o tambor, o cajón, o berimbau sejam o ponto de encontro dos milhares de pequeníssimos Quilombos que vão minando as cidades. Aproveitemos este mês para recordar de onde vêm, qual foi seu recorrido e que mensagem nos traz hoje a cultura afro sobre a liberdade.
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Entrevista com Ramiro Musotto
O ritmo, o furor do século XX
Dinah
Ramiro Musotto é músico, é produtor, é argentino. Tem mais de 20 anos radicado na brasileira cidade de todos os santos, Salvador, Bahia, onde se nutriu dos ritmos da percussão afro-brasileira, somando a ela um olhar latino-americano e mesclando com música eletrônica. Tem dois discos editados, “Sudaka” e “Civilizacao & Barbarye”, além de haver gravado com Lenine, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paralamas e Marisa Monte, entre muitos outros. Em sua última viagem a Buenos Aires, Ramiro nos conta como vêm sonando dentro de si os ritmos afroamericanos e desde que lugar joga com o eletrônico.
Q! A primeira pergunda vem um pouco pelo lado de como você vive como argentino essa forte religiosidade de Salvador, como se convive com isso?
RM: Areligiosidade... eu trato de ser ateu, agnóstico full time... ao mesmo tempo, o candomblé, uando você chega a Savador, fascina totalmente... eu cheguei e em um ano e meio comecei a acender uma velinha e no segundo ano disse “pera aí um pouquinho”, eu não sou um tipo religioso nem muito menos esotérico, supersticioso, nada disso. A religião do Candomblé é muito ignorada, por exemplo, Borges fala de todos os mitos nórdicos, escandinavos, balcânicos e jamais fala dos mitos africanos que tem uma mitologia incrível e toda uma relação com a natureza. E mais, além de ser uma religião, o candomblé é como uma ideologia e então muita gente se aproxima dessa religião por questões ideológicas e de ideais de vida, ou por princípios, muito mais que por religião. Muita gente se aproxima do Candomblé, sem ser religiosa...
Q! De que ligar você toma a música religiosa para compor?
RM Para mim é uma fonte de inspiração alucinante, há algumas pessoas que acreditam que a música religiosa não deve ser usada para fazer música profana e há outras; mais da metade, que acreditam que sim, que a música religiosa pode ser usada como inspiração para fazer um disco, como eu faço, como faz Irakere, como faz Celia Cruz e muitos artistas. Essas poucas minorias estão mais no Brasil, por que em Cuba, por exemplo, não há esse problema. Também as pessoas que estão mais profundamente metidas no Candomblé não tem esse problema, é mais a gente que tem medo, que é supersticiosa.
Q! Talvez onde haja mais ignorância, haja mais resistência.
RM Ou um respeito distinto. Talvez também haja uma corrente de pessoas de “dentro” que diz que não, mas é muito pequena.
Q! Onde você encontra o ponto de encontro entre esses ritmos populares e religiosos e a música eletrônica ou os ritmos contemporâneos que você mescla?
RM Para mim é algo óbvio, a música eletrônica, a música pop hoje em dia, é mais a música eletrônica, está muito baseada no ritmo. E como si o Ocidente houvesse descoberto o ritmo no século XX, antes o ritmo era um elemento mais, que não tinha um valor particular, hoje há um furor com o ritmo. E não só do ponto de vista da percussão, como há hoje em Buenos Aires, que existe esse furor, mas também da música clássica, da música contemporênea, Philip Glass, Steve Reich, milhões de compositores que começaram a usar o ritmo como linguagem musical, como finalidade de evolução. Então a música eletrônica, a música mais moderna hoje em dia, não tem uma grande complexidade armônica, por exemplo, por que o caminho de que vale a harmonias complexas já está meio que passado. Se começou a ver o que mais se poderia fazer e ai a coisa começou a evolucionar por outro lado: pela parte ritmica, por usar diferentes escalas, resgatar músicas etnicas que estiveram mais esquecidas... foi interessante por que quando eu fiz o comentário a Santiago Vazquez do disco de mbiras que ele gravou, que me fascinou, eu lhe disse: “que bom esse disco, essa idéia de mesclar os ritmos folclóricos com a mbira, de tentar mesclar esses caminhos” e ele me respondeu “sim é bom que a complexidade harmônica não seja o único norte da evolução”. A coisa sempre foi por ai, harmonias complicadas e os ritmos eram sempre os mesmos, e agora esse novo horizonte se descobre, encontra na música afro ou na música étnica uma fonte completamente normal de inspiração. Não é que eu tenha descoberto a pólvora, isso é óbvio para todo mundo hoje.

Q! Na hora de tomar algum ritmo que tenha a ver com o religioso pontualmente você busca fazer referência ao que esse toque está dizendo ou o absrai e trabalha como um ritmo mais?
RM Eu sempre tento ter cuidado com que o ritmo não perca sua essência, por que é muito fácil mescla-lo com m loop e que se transforme em outra coisa ou também mal entende-lo. Assim, uma característica do ritmo, que é importante, você pode perdê-la em função de um loop que coloca e essas coisas... por isso é importante conhecer o que se está tomando.
Q! As vezes se escolhem elementos que não são de nenhuma maneira representativos disso que se está tomando...
RM Sim, e também acontece com a música eletrônica, se toma um loop de um ritmo afro, por exemplo, e o colocam, por exemplo cruzado, ao contrário, ou começam no 4° tempo e fica uma coisa, que talvez para quem o faça soe “very interesting”, mas não é para uma pessoa que conhece. Por isso é bom imaginar que o tipo que tocou isso, quando o escute, goste. Isso é bom. Por que colocar uma coisa fora de contexto e virar de ponta cebeça... a não ser que o transforme em outra coisa realmente e que fique irreconhecível para o cara que tocou, ai sim, vale tudo, mas se você mantem o ritmo e o muda todo o tempo, fica tudo cruzado, não sei... o bom é isso, que você trabalhe com um ritmo, mas que quem o fez possa dizer “está bem, ainda tem o sentido do que era o ritmo, está mesclado com outra coisa, que me sugerem coisas novas, mas meu ritmo ainda está ai, a idéia segue ai”. Quando fazemos um samba-reggae, um toque de Oxossi, é bom que o ritmo esteja presente e é interessante por que é a novidade, por que eu não faço música eletrônica normal, como um dj, eu uso o tempo todo a percussão e as linguagens que domino, então minha contribuição seria essa, modificar esse ritmo. mas com respeito ao que significa o ritmo, as vezes eu o tomo, às vezes não. Um ritmo de Xangô, por exemplo, você pode fazer igual ou fazer um tema que não tenha nada a ver. Na música Raio, de “Sudaca”, poucas pessoas se dão conta, mas começa com um ritmo muito lento, que é um ritmo de baté para Xangô, então essa idéia que já existia, eu a cloquei eletrônicamente e depois fui transformando. E a música tem esse nome por que Raio se vincula com Xangô, e isso foi o que me inspirou para fazer a música. O mais importante, resumindo, é manter a essência do ritmo.
Q! Carlinhos Brown apresentou faz um tempo “Candombless”, Um disco que também mescla elementos da música do Candomblé com ritmos eletrônicos. O que você acha desse trabalho?
RM Eu gosto muito desse disco. É uma mescla realmente interessante. Está muito cuidada, a parte tradicional, poderia ser mais aventurado, digamos, mas está muito bem gravado, é muito lindo e muito interessante. Esse trabalho não é considerado um disco de carreira dele, Carlinhos apresenta Candombless, quase não canta ou canta muito pouco. Eu o escutei numa discoteca muito underground na Bahia, recém havia saído e foi um sucesso nesse lugar, foi como uma luz.
Q! O Que Carlinhos representa na Bahia?
RM Olha, eu conheço Carlinhos desde que chaguei na Bahia, ele tinha 21 anos e eu 20 e tocamos no carnaval. Ele ainda não havia feito nenhum disco, nem nada, mas ja era o percussionista que mais se destacava. Para mim, no mundo inteiro, é um ds melhores, em um estilo muito pessoal. Ele tocava percussão baiana, que nesse momento era algo que não existia como tal por que se você vê um recital dessa época, nos anos 70 e 80, um show de Caetano Veloso ou Gilberto Gil ou Gal Costa ou Maria Bethania, que eram os grandes baianos famosos, os percussionistas eram cariocas e tocavam uma percussão que não era baiana, o ijexá era mais ou menos e o samba era carioca, não havoa estilo de percussão baiano definido, isso é muito novo e isso se deve de todo a Carlinhos. Inclusive o set de percussão baiano não existia, se tocava com congas, timbais e bongô, nada a ver, era cubano. Agora existe um set é que da Bahia, não é nem do Rio nem de Recife, é distinto. Com respeito a seus discos, o primeiro me parece fantástico, sublime, realmente. Depois, como todo artista pop tem momentos melhores que outros e sua proposta é de ser um músico pop, quer dizer, que seja escutado massivamente e nesse sentido corre alguns riscos assumidamente. Mas me parece genial, do mais saudável que foi feito na Bahia e graças a Deus existe, por que senão Bahia seria um caos carnavalesco e nada mais. Carlinhos é como uma luz ai na Bahia.
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Encontro de candombe em Córdoba
Contumancia Candombera
Mara
Desde Córdoba Capital, os Duendes do Parque começaram a chamar. Trabalharam, organizaram e nos reuniram no “Encontro de Candombe” que foi feito nos dias 13, 14 e 15 de outubro. Até lá fomos chegando. Não sem antes ter feito rifas, festas e outros tipos de artimanhas que juntamos para poder viajar.
Desde Salta "Copetallama", de Salto (Uruguay) "Tunguele", de La Plata " la Cuerda", de Montserrat "La flor del Mondongo", de la Boca "Candombe Vecinal de la Boca", de Córdoba "Tucumpa" y "Los Duendes". Além de estarem presentes Candomberos del Chaco, Rosario, Corrientes, Santa Cruz e Montevideo.
Na chegada já se ia palpitando o que íamos fazer nesses três dias de encontro Candombero. A primeira foto que tenho é do galpão ferroviário, as vias de trem e um pouco de pasto onde haviam tambores por todos os lados, pessoas sentadas ao sol em pequenas rodas, risadas conhecidas e desconhecidas, saudações de boas vindas, palavras de intercâmbio, perguntando de onde vínhamos. E enquanto íamos noa encontrando, o Candombe começava a soar. As canções que todos compartilhavamos se escutavam, a dança tímida apareceu e uma rande roda se armou. O encontro havia começado!
Aos Duendes não lhes escapou nada. Estaa tudo organizado e todos nos somamos. Turnos de cozinha, café-da-manhã, almoço e jantar, debates. Apresentação das Comparsas, uma Festa do Tambor e a Grande Chamada.
Ana Domínguez, pesquisadora de manifestações afroculturais nos contou um pouco da cosmovisão africana, do Ifá, dos orichas, do mito, das diferenças entre xamãs e sacerdotes. Da ritualidade e religiosidade dos tambores. Marcos Carrizo, historiador afrodescendente, nos contou sobre as populações negras em Cordoba, na época colonial, de sua resistência. Juan Carlos Rodríguez, integrante e diretor de algumas comparsas uruguaias. Nos falou da problemática do Conventillo de Ansina e da experiência das chamadas uruguaias e das chamadas.
Não faltou lugar para o debate e as propostas entre todos, creio que coincidimos em que o Candombeé Resistência Cultural e reivindicação de nossas raizes africanas, ritualidade de um encontro entre os tambores e os homens e mulheres que os tocam e os dançam e que depende de nós que nosso caminho não se distorça em interesses e situações que nada tenham que ver com o que significa verdadeiramente o candombe.
As últimas imagens que tenho são Chamada. Uma serenidade compartilhada, cores misturadas, vermelhos, pretos, amarelos, brancos, verdes, sorrisos, alegria.O som da clave ao começar a desfilar, os vizinhos cordobeses saudando ao passo da Comparsa, os olhares das crianças, repique e piano. O candombe ocupando as ruas, a dança incansável.
O toque final com todos demosntrou que nesse encontro se fez “contumancia” candombera, pedindo a palavra emprestada a Mateo. A ele as palavras não alcançavam, então explorou rincões da métrica e a sonoridade de língua para definir o indefinível, a “contumancia”era aquilo que realmente lhe parecia bom.
Mara > Bailarina convidada de "Candombe Vecinal de la Boca" |
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Perigo de desalojamento do Movimento Afro Cultural
Cultura Afro, ferramenta de transformação social
Dinah
O edificio do movimento Afro Cultural, que também serve de morada e uma grande quantidade de famílias, se encontra em perigo de desalojamento. Entre mates, Diego Bonga, principal referente do movimento, noc conta sobre o trabalho que desenvolve e a situação atual do galpão.
Perto da Estação Constitución, bordeando al sul as vias do trem, se pode ler, sobre a fachada do velho galpão, “Movimento Afro Cultural, capoeira, candombe, dança”. Dentro, um círculo de tambores se fecha em torno do fogo que os guarda “hje se toca – me explicam -, mais adiante, uma chaleira anuncia futuros mates e um cartaz oferece “mate cozido com trta frita a $1,50”.
Este espaço, localizado em Herrera 313, não apenas oferece alojamento a 16 famílias da comunidade afrodescendente, mas também é a sede do Movimento Afro Cultural, que desenvolve, há sete anos, um intenso trabalho de difusão cultural.
Entre as atividades que impulsiona o MAC, encontramos a capoeira, samba, candombe e uma oficina de construção de instrumentos de percussão. Além disso, periodicamente são desenvolvidas jornadas culturais e, semanalmente rodas de capoeira e toques de candombe. A idéia, nos explica Diego Bonga, principal referente do movimento, é fundamentalmente “fazer da cultura afro uma ferramenta de construção, de reparção, para emendar, não tem que ser para outra coisa, para benefício pessoal, tem que dar possibiidades para uma mudança real e para isso, primeiro temos que mudar as pessoas”.
O trabalho de Diego Bonga começou em Buenos Aires pelo ano de 87, quando o Centro Cultural Ricardo Rojas começou a abrir um espaço para as atividades culurais afroamericanas. A partir do assassinato de José Defín Acosta Martínez, morto pela polícia quando tentava defender outros afrodescendentes que estavam sendo maltratados pela polícia, o trabalho começou a tomar um novo caminho de conscientizar a negritude de que essa luta ainda não terminou, muita gente morreu e por isso ainda estamos nos libertando, agrega Bonga.
Com respeito ao perigo de desalojamento em que se encontr o edifício, Diego nos diz “este é um lugar de resistência afro, um espaço onde todos são recebidos, queremos que se saiba o que está ocorrendo, estamos pedindo ajuda ao INADI e a distintos órgãos, estamos nos constituindo como uma ONG.
Chama atenção que o MAC não conte com um assessoramento legal gratuito, “as vezes como menos, mas pago ao advogado”, conta entre risos Bonga, para quem a situação não se reduz a um problema civil, mas que seu alcance está no âmbito do político pois, “este é um lugar de resistência afro, conde o negro tem uma possibilidade de contenção, além disso, este lugar foi abandonado por seus donos, deixando uma dívida terrível para o Estado, esse mesmo estado que tanto nos deve à comunidade Afro”.
Para Diego, o essencial nesse movimento é “começar a tomar posturas, o neutro já se foi, é quase uma obrigação. Vê como está o mundo? O ue você pensa em fazer? E também tirar cada vez mais as linhas que nos separam com o resto dos países “eu acho que os limites territoriais não deveriam afetar-nos tanto. Os afro não participaram em nenhuma dessas divisões políticas. Eu poderia ter nascido no Uruguay, aqui, nas Minas de Potosi ou no Quilombo dos Palmares, isso depende da época, do barco e do destinatário. Eu sou afro, nascido no Uruguay. O Quilombo dos Palmares, por exemplo, era um Estado dentro de outro Estado, se lutava contra o Estado Brasileiro, então isso de que a capoeira é brasileira, eu não acredito nisso...” conclui.
Atividades El Movimiento Afro Cultural funciona em Herrera 313 Capital Federal, para conectar-se 4361-5944 grupoliberacion@gmail.com. As aulas de capoeira são às segundas-feiras, quartas e sextas, de 19 a 21hs. As rodas são aos domingos às 16hs no Parque Lezama (Brasil e Defensa). As aulas de Candombe são às quintas e sábados às 18h e a saída dos tambores, domingo às 17h em Barcarce y Garay. Também há aulas de dança afro, às segundas-feiras 17h.
Día da Consciência Negra 25 de novembro se realizará pelo Dia da Consciência Negra, em memória do assassinato de Zumbi dos Palmares e também contra o desalojamento do galpão. O mesmo será na sede do MAC, a partir das 15h, com capoeira angola, candombe, dança afro, debates, buffet e sorteios. |
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24 de Noviembre, Villa La Bolsa, Córdoba
1º Encontro Nacional de Cajón Afroperuano
Marco Esqueche y Mariana Lipka
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“Se saberão nossos compatriotas afro tudo que tivemos que lutar no espinhoso caminho das cadeias. Lutamos por não vir, logo, por liberarnos. Depois nas guerras pátrias, depois para sermos integrados na sociedade. Logo, lutamos para ser respeitados, e por direito à identidade, por visibilizarnos para sair deste silêncio. Para que nossa voz amordaçada seja escutada em todos os caminhos”.*
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O cajón afroperuano chegou dentro dos corpos dos africanos que foram sequestrados nas costas do continente Mãe. Chegou e jamais se apartou de nenhum dos milhões de seres humanos que construiram com seu sangue e criatividade o que hoje conhecemos como América.
Transformados em afro peruanos recriamos e desenvolvemos este instrumento de percussão, feito de madeira simples e nobre. O cajón não apenas acompanha a raiva, a nostalgia, a alegria e os sonhos de liberdade, como também se converteu na bandeira de liberação dos povos negros. A golpe de cajón se formaram confrarias, salas de nações e outros espaços de organização.
Ao ritmo do cajón se estabeleceram laços de ajuda mútua, como o ancestral pandero (forma de organização econômica para ajudar ao mais necessitado), mediante a qual se revitalizam os laços de solidariedade entre nós. Além disso, esses laços de solidariedade se expressam e re reforçam por meio do compadrio (forma sagrada de construir redes consanguineas de valores de respeito ancestral).
Ao ritmo do cajón, as numerosas famílias negras mantemos viva a memória histórica, escondendo-a e resguardando-a nas danças, cânticos e rodas de cajones. Nossas famílias, em sua maioria com mais de dez filhos, fazemos oposição ao “sistema de paternidade responsável” como uma meneira de manter nossos mais profundos costumes de riqueza na coesão familiar.
Por isso é que o cajón não é tocado por uma pessoa, ancestralmente se toca em grandes coletivos, onde a destreza não é io mais importante, mas sim a construção musical coletiva em si mesma. Tampouco o cajón se pinta, nem se marca com inscrições, por que como dizia um antigo: “para que marca-lo se o cajon não tem dono, é de todos”.
Se pode afirmar então que o cajón é testemunho da resistência cultural, espiritual e revolucionária do povo afro peruano. É também um espaço de encontro e uma ferramenta para a organização social e política, desde a ancestralidade.
O cajón é mais que um instrumento musical, é a unidade do povo afro peruano, é o alimento espiritual para construir sonhos, é o ponto de encontro com a memória histórica, com o legado dos ancestrais sempre ressignificado em cada golpe.
Dai a necessidade desse primeiro encontro nacional do cajón afro peruano, para fazer chegar nossa voz, nossa proposta, nossa constribuição ao novo pensamento, alimentado pela memória enterrada.
Outro antigo dizia: “ninguém sabe se algum dia dez mil cajones sonem juntos, a paz duradoura chegará. Este sonhos noa anima a continuar há 500 anos, esta profecia nos dá a energia para segir-nos juntando a todos e todas, aqui na Argentina, a “branquinha”, a “européia”, nesse mesmo espaço, nesta mesma cidade de Córdoba que teve 44% de população africana, voltamos a reunir-nos, pois talvez algm dia mais cedo ou mais tarde, todos os argentinos e argentinas se sentem orgulhosos de ser FILHOS DE TRÊS GRANDES MÃES: A EUROPÉIA, A ABORÍGENE E A AFRICANA.
Bem vindos irmãos e irmãs de todas as cores e sabores, venham neste 24 de novembro compartilhar conosco os ensinamentos deixados por nossos avós, este encontro não é para percussionistas, é apenas para todos os seres humanos que sintam, no fundo do coração o chamado de nossa mãe AFRICA.
Axe!
* Cirio, Norberto Pablo: En la lucha curtida del camino… antología de literatura oral y escrita de afro argentinos. INADI, Buenos Aires, 2006.
Marco Esqueche es artista afro peruano y Mariana Lipka, estudiante de historia / Más información: teatrodelritmo@hotmail.com Cel. 03541-15541548
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Ramiro Musotto
Civilizacao & Barbarye
Ramiro aprofunda sua viagem ao pulso mais profundo dos habitantes originários desta terra, com o espírito de celebração e a riqueza dos ritmos, timbres e cores que o caracteriza e que o converteu em um dos percussionistas mais respeitados do mundo. Em dez tracks contundentes, esta Civilização & Barbarye caminha entre a Cuba Afro, as aldeias guaranís, a voz sampleada do Subcomandante Marcos, os toques da Bahia Negra, os Orixás e os Orishas e até o cancioneiro popular brasileiro.
Os habituais passageiros deste ônibus multiétnicos acompanham o percussionista, vindos da Orchestra Sudaka: Léo Leobons (percussão, bata e voz); Sacha Amback (teclado, theremin e sampler); Ramirito Gonzalo (berimbau e percussão) e Mintcho Garrammone (cavaquinho, guitarra baiana, acordeón). O disco traz além destas as participações especiais de Chico César, Arto Lindsay, Rostam Mirlashari e Santiago Vázquez
Os habituais passageiros deste ônibus multiétnico acompanham o percussionista, vindos da Orchestra Sudaka.
www.ramiromusotto.com
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Rara a vida, não?
Marisa e eu fomos amigas sempre... ela é espanhola e eu uruguaia, estudamos juntas, quase todo o liceu e preparatórios juntas... Nossas primeiras discussões de política. Sim, discutíamos... essas discussões nos fortaleceram como ninguém. Ela voltou a Espanha e não soubemos uma da oura por muito tempo. Mas a vida dá voltas lindas.... voltou quando eu mais necessitava: minha mãe faleceu há 13 anos, justo quando Marisa veio uns poucos dias estar com parentes e amigos, e a estar comigo. Passaram anos e nos perdemos outra vez... Parece que o fato de que Sebastian, seu filho mais novo, faz 16 anos em 16 de junho, como eu, a fez recordar mais fortemente o tempo que não sabia de mim. E apesar de que Marisa não usa internet. seu irmão sugeriu que a usasse para buscar-me... rara é a vida... ela o fez, entrou com meu nome, e entre 128 mil possibilidades que dá a página tivemos sorte... eu estava na primeira, ela entrou em www.revistaquilombo.com.ar e me encontrou na edição 24, no artigo “Desde o mar”... o que dizem? Rara é a vida, não?
Mirta Olivera, artista plástica (Montevideo - Uruguay) mao166@adinet.com.uy |
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