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quilombo ! arte e cultura afro
Setembro 2008 N39 buenos aires | web | contato
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Tradução FUNCEB,
Esmeralda 965, Buenos Aires /
www.funceb.org.ar |
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Milonga!
Dinah
Há um núcleo que nos une, um centro que atrai toda a sua periferia: uma música que nos convoca, uma dança que nos aproxima, um código compartilhado entretece e ordena os movimentos. É lá que a gente se encontra, interage, vive, cria.
Esse núcleo, cíclico e cotidiano encontro de multidões, é conhecido por diferentes nomes: candombe, capoeira ou milonga, tudo depende do lugar onde a gente se encontre –tanto física quanto espiritualmente.
Trata-se de espaços humanamente criados, vitais, necessários lugares onde a sociedade respira. Eles estão vivos, são de todos porque não pertencem a ninguém, mexem-se no tempo e no estilo do lugar que os faz nascer e os atualiza uma e outra vez.
Eles crescem, se espalham, se separam para definir-se: Angola e Regional na capoeira, Ansina e Cuareim no candombe… e em Buenos Aires, um outro estilo perfila-se no tango: um que tenta se atualizar com as linguagens e as sensibilidades atuais.
A fusão se apresenta como um desafio para uma cidade altamente musical, que respira o tango no seu dia-a-dia. Ecleticamente influída por outras linguagens que tambén nos exprimem e onde o afro promete encontrar o seu lugar novamente. Assim, com ares de arrabalde, esta cidade, que começa a saber-se negra, já dança milonga ao ritmo do tambor.
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Comemoração da Quilombo! na Funceb
3 anos fazendo a Quilombo!
No último 21 de agosto, a Revista Quilombo! apresentou, no auditório da Fundação Centro de Estudos Brasileiros, um material audiovisual que tenta transmitir o que significa fazer a Quilombo! em Buenos Aires. A idéia era começar a comemorar o nosso terceiro ano e apresentar a tradução para o português.
“Quilombo! em Buenos Aires” foi o título que escolhemos para este primeiro vídeo, onde tentamos transmitir o nosso olhar sobre o mundo afro nesta cidade. Alejandro Frigerio, Pablo Cirio, Yuyú Herrera, Facundo Posadas, Isa Soares, Carlos Rivero, José e Juan Palomino, entre outros, deram a sua voz para as imagens que tecem o relato deste audiovisual.
A festa começou com a dança de Cecilia Benavides, quem recebeu os convidados na galeria personificando Exu. No auditório, a projeção das capas das 38 edições da Q! e o áudio dos microprogramas de rádio receberam o público.
O vídeo, que começa nas margens do Rio da Prata, relata em 18 minutos o sentimento e o pensamento dos atores e intelectuais de algumas das expressões afro que acontecem nesta cidade.
Como encerramento e unindo o nosso folclore a outros ritmos negros da América, o grupo “Bombos Legüeros” –projeto dirigido pelo executante de bombo Carlos Rivero- contribuiu com o ritmo e a dança desta terra que, a cada dia, se torna um pouco mais negra. |
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Tango | novos compositores: entrevista a Hernán Reinaudo e Argañaraz
Pensar o tango
Carolina Di Palma
Foto e video, Margarita Solé, Ramiro Saenz
Eles, na verdade, usam o violão para fazer Tango. Acompanham cantores, fazem parte de outras orquestras, dirigem e produzem outros projetos. Aprenderam quando escutaram os mestres. Formaram-se na academia de música e nas ruas. Tocam muito, em Buenos Aires e fora dela. Para tudo isso existe o myspace (www.myspace-reinaudoargaaraz). A Quilombo! lhes propôs que nos contassem como é que eles pensam o Tango para que os seus violões soem assim. E eles nos surpreenderam: “Somos a primeira geração que voltou para o Tango por sua conta”.
Por que o Tango? (Começamos com uma pergunta ampla, mas categórica…)
“Temos 30 anos, crescemos com o rock, é geracional. Porém, um dia sentimos que o rock ficava vazio de sentido e nos vendia rebeldia. Nós não conhecíamos o Tango profundamente. O programa Grandes Valores havia acabado por afundá-lo. A gente se desenvolveu em um buraco histórico do tango, de onde ele tinha sido tirado, queimado. A riqueza artística do Tango tinha sido proibida. Por outro lado, na academia predominava a música de fora com relação ao argentino, que não era bem visto. Então, a gente se reconheceu como parte de uma geração sem identidade e o tango nos deu a possibilidade de encontar algo que era nosso. Assim, a gente começou a pesquisar o gênero e descobriu uma quantidade de compositores, poetas, músicos e estilos e, de repente, tudo aquilo tornou-se próprio. Isso abriu um canal de expressão que nos fez fluir de maneira diferente”.
Então, a partir desse momento, desde os 30 anos, conte-nos como foi que o Tango surgiu.
“O tango tem as suas origens negras, mas não há muitos representantes negros do gênero. O negro foi a faísca do tango. Joaquín Mora foi um grande compositor e um dos poucos exponentes negros destes começos. Depois, o tango se vincula ao crioulo, ao imigrante e à escola de música européia. O gaúcho traz o violão para a cidade, quando ele vai embora do campo e o tango pega esse instrumento. Na Milonga é que ainda há vestígios bem marcados das origens africanas, o tempo por exemplo, o ritual. No tango não tem tanto, porque a fluência de sua música, que sobe e desce o tempo, dificulta a marcação fixa da percussão”.
Como vocês se atreveram a criar algo novo, conhecendo a obra dos pesos pesados do Tango? Vocês são loucos!!!
“O Tango nos traz, por um lado, o passado e, pelo outro, o desapego. Vamos para o passado a fim de entender, de conhecer, de aprender o que foi feito, de descobrir os matizes. Mas também acreditamos que o nosso tango deve afastar-se, em algum momento, para poder criar. Estamos em uma época de transição, na qual queremos fazer obra, falar de coisas que acontecem com a gente para que o tango volte a ser crível. Tem gente que está escrevendo letras novas, poesia, músicos que estão compondo arranjos novos para o tango tradicional, bem como novas canções. O tango era popular, era dançado e escutado em toda a parte. Quando os irmãos Expósito escreveram Naranjo en Flor, eles já tinham escrito muitas outras letras. Eles cresceram com o tango. Quando Piazzolla disse que era preciso renovar o tango, ele já tinha tocado o tradicional durante muitos anos. Acreditamos que é importante produzir o máximo possível, depois, com o tempo, o extraordinário irá surgindo”.
É moderno fusionar. Isso faz da música um produto cultural “cool”. Vocês que são modernos, fazem fusões no Tango?
“O tango sempre esteve relacionado com outros gêneros. A fusão é natural, a nossa formação parte de outros gêneros e está em contato com outras formas de expressão musical. A fusão já não surpreende, na verdade. O novo é o passado, aquilo que tiraram da gente e que nós desconhecemos. Nós vimos do rock, do jazz, do flamenco. É claro que a gente incorporou tudo isso na música, não poderia ser de outra maneira. A idéia da fusão parece-nos mais forçada. A fusão faz parte da nossa música muito antes de ser uma procura intencional. Charly García disse uma coisa muito interessante esses dias: ´O presente bate contra o futuro e volta necessariamente para o passado´. Nós queremos aprender o tango de zero, voltamos para o passado a fim de conhecê-lo, para nos encher do gênero e dos seus estilos. É só nesse momento que a gente começa a criar”.
Revisam, compõem, fazem o novo, experimentam um tango desta época. Mas, o que acontece com o “inimigo público”: o público “tanguero” tradicional? Como é que as “pebetas” e os “pebetes” (N. da T.: Palavras do lunfardo, a gíria argentina do início do século XX, amplamente utilizada no âmbito do tango. O significado é “garotas” e “garotos”) desta época podemos ter acesso ao tango da nossa época?
“O público tradicional é um dos nossos inimigos, pois só valoriza o tango tradicional. É por isso que estamos gerando e apoiando a criação de espaços novos para outros públicos, como o Clube Atlético Fernández Fierro, o Orsay, o Social. São espaços para públicos que têm a ver com o tango atual”.
Lúdico é o seu próximo disco. Brincaram com o Tango? Ah, não, é o fim da picada...
“A gente fez tangos velhos com arranjos atuais. E, além do mais, a gente compôs tangos novos. Brincamos com as cores da Espanha andaluza, da energia do Brasil, do Candombe. Isto surgiu naturalmente, não tentamos renovar, a idéia foi compor. Este disco tem a ver, mais ou menos, com tudo o que a gente acabou de falar”.
carolina.dipalma@gmail.com / margaritasole@gmail.com / ramiro.saenz@gmail.com
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Atualidade | expressões afro na cadeia de Ezeiza
A dança que nos tira do lugar
María Paz Moltedo
Dança Afro, Percussão e Hip Hop, três elementos que refrescam a cultura Afro e liberam quem os pratica, tentam acordar quem não tem a liberdade de se movimentar: presos e presas da Prisão de Ezeiza
Cecilia é professora nacional de expressão corporal e, principalmente, uma pessoa cujo interesse volta-se para a visão das coisas do outro lado. Talvez isto a levasse a se conectar, de corpo e alma, com o mundo Afro e a querer transmitir a outros esse legado. Esses outros podemos ser todos, porque não há nenhuma pessoa que não precise se separar do seu dia-a-dia, dos seus pensamentos e crenças para poder abrir-se. No caso da Cecilia, foram os presos e presas da Prisão de Ezeiza quem ela escolheu para lhes dar um belo presente: o de viver um aqui e agora diferentes daqueles do seu tempo na cadeia.
Graças a uma política cultural positiva, a um projeto apresentado pela Chilinga junto ao Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos e a Alejandro Marambio, diretor da Prisão, ela começou a dar aulas de dança afro para as mulheres do módulo três de Ezeiza, e Hip Hop e percussão para os homens do módulo quatro, a partir de um projeto aprovado pelo Ministério da Educação. Ao ver tantos atores envolvidos nisso, tudo parece pura teoria e papéis, pastas, contratos, como costuma acontecer quando o governo esboça a palavra “projeto”. Porém, desta vez, a força de fazer e gerar uma nova realidade levou a concretar estas oficinas, que funcionam e crescem muito rápido.
Felizmente, o assistencialismo não tem espaço no jogo que começa quando Cecilia leva o seu aparelho de som para alguma das salas da unidade e espera que os homens e as mulheres que participam de cada oficina desçam dos pavilhões. Nem ela nem os seus alunos podiam imaginar a conexão que surgiria e ressurgiria apenas a aula começasse. Conexão entre eles mesmos, desconexão da realidade em volta. “Para quem está lá dentro, não há 365 dias, mas um dia que se repete 365 vezes. Queremos é tentar que o nosso tempo seja diferente, porque na cadeia não há tempo, e se a gente gera um espaço como este, a gente rompe com essa coisa monótona e padronizada”.
O espaço em que essas oficinas se desenvolvem significa uma janela nova através da qual a gente possa olhar. Alguns dançam, outros escrevem letras de músicas, outros fazem percussão e até conversam sobre os aspectos religiosos da cultura Afro, como o candomblé, o umbanda e as comunidades negras, que deixam de boca aberta às mulheres da Malásia, do Brasil, do Peru e da Argentina, entre outros países. Os seus diferentes tipos de dança se tornam um só quando Cecilia atinge o seu objetivo: levá-los e levá-las para um outro lugar, diferente daquele que os rodeia.
A importância de gerar esse canto, através do qual canalizar a sua rotina, é crucial, ao analizar qual é o sentido de trancar uma pessoa, qualquer que seja o motivo, e de rotulá-la em uma única função e papel para a sua vida, o de criminoso. Os dias deles se passam através das grades e não há nada que, de fora, possa mudar os seus destinos e o suposto motivo pelo qual eles são o que são. Se essa abertura não aparecer, eles continuarão sendo a única coisa que a sociedade permite que eles sejam.
“Vocês me tratam como uma pessoa normal, diz um dos alunos da oficina em uma ocasião. Eu respondi para ele: ´Mas você é uma pessoa normal!´ Quando a gente trata os outros de igual a igual de verdade, o outro vai devolver isso mesmo. Quando você se aproxima dos outros com violência, eles vão lhe devolver violência. Neles se descarrega tudo o que a gente não quer ver. Coloquemos eles bem longe, em Ezeiza, aonde é muito difícil de se chegar. Se houver algum problema, é melhor não escutá-lo, não vê-lo”. Os fantasmas e a carga negativa de ser um criminoso estão incorporados tanto nos supostos “bons”, que estão do outro lado das grades, quanto na própria percepção que os supostos “maus”, que estão dentro, têm de si mesmos. A separação não é humana, porque não há homem que não seja bom e ruim, tudo depende do lugar que lhe for atribuído a cada uma destas pessoas na sociedade, e se o lugar que lhe é atribuído aos supostos “maus” é o do isolamento e o de não dar-lhes outra oportunidade para ser outro tipo de pessoas, é preciso refletir até que ponto somos bons ou ruins, se não podemos tentar mudar a realidade de alguém para ele se convertir em uma melhor pessoa.
“Há uma linha muito sutil que se sustenta o tempo todo, isto pode ser ótimo, ou pode ser um desastre, e essa linha está sempre, é muito sutil, porque quando a gente abre algo, tudo pode acontecer. Ninguém é absolutamente bom nem absolutamente mau”.
Catalogar uma pessoa de má ou ruim é uma tarefa muito difícil. A própria consciência tenta fazê-lo e nem sempre o consegue. A diferenciação parece muito simples, mas se torna difícil quando se vê a dupla face que cada ser humano tem e, desta maneira, se desmancha a fraca brecha que o sistema carcerário tenta reforçar quando separa, com um material isolante, os criminosos dos inocentes.
manaconda6@hotmail.com
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cinema | Abyali, um documentário de Matías Pablo Saccomanno
Sonhar não custa nada
Juan Pablo Serrano
Tem coisa melhor do que percorrer o continente africano, especificamente Camarões, da mão da música? E se essa música é representada por um grupo de jovens entusiastas que procuram, com escassos meios mas com muita vontade, reivindicar e resgatar os ritmos tradicionais africanos, melhor ainda. É de tudo isso que fala ´Abyali´, um documentário dirigido por Matías Pablo Saccomanno que, sem orçamento nenhum e sem ser financiado por qualquer festival, seguiu esses músicos durante os seus últimos cinco meses de permanência naquele país.
Assistir a este filme é viajar durante 80 minutos pela cidade de Yandé, com os seus costumes, as suas misérias (que não são poucas), a sua corrupção, as suas doenças, mas, principalmente, com essa juventude que tenta fugir do cotidiano e poder viver daquilo que realmente ama: a música.
Samy Manga é o protagonista que nos leva através deste percurso, que começa com os primeiros ensaios de Abyali Percussão e continua até a sua apresentação no Festival de Dança e Percussão Abok / N´Goma, único espaço onde os escassos artistas de Camarões podem mostrar aquilo que fazem durante o ano inteiro. O mais surpreendente que o filme coloca é a capacidade de sobrevivência que estes músicos têm ao viver em um país onde a indústria discográfica é inexistente e onde quase não há salas para oferecer espetáculos. Como Elise Mballa, a diretora do Festival, deixa bem em claro em uma passagem do filme: “É verdade que a gente tem problemas de público, as pessoas não querem pagar para ver um espetáculo, então, como é que um artista vai sobreviver? Até quando é gratuito as pessoas não vêm, porque quando elas têm problemas financeiros, o primeiro que dispensam é o lazer”.
A boa idéia do realizador foi mostrar-nos esta outra cara da África, não aquela que vemos nos telejornais ou nos documentários da National Geographic, mas aquela que vai além do pessimismo geral com que se vive, porque apesar de suas realidades, os músicos que compõem Abyali, também sonham com progredirem e se tornarem artistas.
“A todos aqueles que sonham, mesmo parecendo inútil
aos que trabalham para tornar seus sonhos uma realidade
e aos que nos fazem sonhar”
Abyali
Estréia: 7 de setembro no Malba Cinema, Figueroa Alcorta 3415, Capital / domingos e quintas-feiras de setembro às 22 e 20 horas, respectivamente.
jserrano78@hotmail.com
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Quilombo! em imagens |
Balé de danças afrocubanas
Um fato, irrepetível, some no tempo. Acontece só uma vez, dessa vez. A foto é o seu vestígio. Conheci um lugar e quase não me lembro dele, ou a minha lembrança não se parece com ele. A minha memória me coloca armadilhas. Ou pelo menos era o que eu acreditava, por isso tirei fotografias até não ter mais luz. Mas não, a armadilha não está na minha memória, mas alguma coisa sempre me escapa entre um piscar e outro. Tentar aprender disso não é o mesmo que me segurar do que se escapa. O segundo é impossível, o primeiro é formoso. A foto também é um vestígio disso.
Victoria Sayago
Balé de danças afrocubanas, Casa da Cultura, Santiago de Cuba, fevereiro de 1998.
Para enviar sua foto
margaritasole@gmail.com |
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Candombe | conhecendo a história recente
Candombe, grande pulso e impulso
Mara Padilla
Candombe. Como o grande pulso e impulso. De ritmo, dança, música. De espaços de intercâmbio e criação. A tradição, a fusão, a vanguarda. A própria vida. E entre candombes e tambores, rituais e festejos, aparece a necessidade da história cotidiana, das perguntas, da reflexão. Propomo-nos ir armando a trama de histórias candombeiras, de tribos do tambor que apareceram um dia e chegaram até aqui, de boca em boca. Ninguém escreveu sobre elas, mas fazem parte daquilo que vivemos, escutamos e vemos hoje em Buenos Aires e em muitas províncias do nosso país.
Fala-se em “candombes” daqui e de lá, em reivindicar nossas raízes afro, em nossos negros coloniais que tocavam o tambor. Diz-se que pode ser uma moda, que é história da outra margem. Cada um interpretando a sua vivência, o seu sentir. Mas há circunstâncias que não têm explicações terminadas. A realidade é que os “candombes” se sentem e se vivem em muitos lugares da Argentina. Como chegamos até aqui, é parte da procura. E esta história, uma fatia da resposta.
Conta-se que em um estúdio de gravação que se tornou um centro cultural houve uma grande confluência de músicos em torno do candombe. Com a particularidade de que o grande articulador deste encontro foi Beto Satragni, grande músico e compositor, criador do grupo “Raíces”. Depois chegou o Agronomia, um espaço de encontro candombeiro, lá pelo ano 2000, quando eram muito poucos os grupos que se juntavam nesta cidade em torno do tambor. Começava a construção de uma trama candombeira, de novos encontros que continuam até hoje. Estampadas em expressões artísticas e musicais.
Cuandonde, a confluência candombeira
Lá pelo ano 1998, um grupo de músicos que tocava jazz, estava gravando em um estúdio que o compositor, pianista e cantor Matías Mormandi chamou de “Cuandonde”. Entre estes músicos também estavam Matías Rodríguez no baixo, Sebastián Groshaus na bateria, Tachi Opieczonek no violão e, a este, se somaria Daniel Mormandi, baixista e violonista.
Influídos pela fusão entre jazz e candombe de Rubén Rada, eles começam a se conectar com o Candombe. Uma situação nada fácil, na época, por causa da pouca informação que circulava. Dani e Tochi viajam a Córdoba, onde conhecem Gonzalo Marcman, um uruguaio que lhes transmite os toques do candombe e que tocava com caixas de papelão simulando tambores. Eles armam o trio “Los Candomberos”.
No ano seguinte, sendo “Mati” o impulsor, eles alugam o espaço de Cuandonde e montam um centro cultural onde eram feitas festas candombeiras.
Uma noite, Beto Satragni chegou ao Cuandonde. Ele veio junto com um grande grupo de músicos, entre os quais se encontravam Silvia e Eugenia Gómez, percussionistas e compositoras da cidade de Concordia (Província de Entre Rios), Sergio Moran e Oscar Linero, bateristas e percussionistas. Eles forneceram às festas do Cuandonde um encerramento com 15 tambores tocando candombe e, ainda, compartilhariam o que fora o espaço do Parque Agronomia.
Começava assim a trama de uma rede musical candombeira que, ao longo destes anos todos, legou uma riquíssima produção musical, na qual o tambor nunca faltou.
"Agronomia", a magia
O Cuandonde fechou. Ao mesmo tempo, Matías e Daniel Mormandi e Tochi Opieczonek sentiram a necessidade de gerar um lugar onde pudessem continuar tocando. Eles já haviam viajado para o Uruguai e tinham uma corda de tambores (vários tambores tocando juntos).
O local escolhido foi um terreno enorme, localizado no bairro de Agronomia (na cidade de Buenos Aires), rodeado de verde e onde a cidade parece perder-se. Lá começou a acontecer o ritual do candombe domingo após domingo e, aos poucos, foi chegando gente com vontade de dançar e tocar tambor.
A particularidade deste lugar foi que nunca conseguiram se organizar como outros grupos ou comparsas (“blocos”) que estavam em Buenos Aires naquela época. Eles se juntavam em torno do fogo armando uma roda. O chimarrão passava de mão em mão, de hora em hora, até a noite cair. Eles cantavam os clássicos do candombe, os violões acompanhavam e também se escutavam zambas e chacareras. Praticava-se capoeira e as primeiras festas de luau e tambores foram feitas.
Aos poucos percebia-se que o candombe na cidade começava a percorrer seu próprio caminho. Ficaram sabendo que, aos domingos, aconteciam as “Chamadas” no bairro de San Telmo e então se conectaram com o Movimento Afrocultural Bonga, porque sentiram a necessidade de se aproximar das fontes.
As vozes daquela época
A Agronomia não parou de crescer: “Era um lugar onde não se sentiam as regras nem a organização. Éramos todos os que viajávamos pelas ruas alternativas. Os lugares que já estavam não eram isto, eles estavam muito organizados”, conta Tochi. E Dani Mormandi acrescenta: “Na Agronomia gestou-se uma onda muito daqui... o tambor é um aprendizado, é um ritual e merece muitíssimo respeito. Nós estivemos ligados a isso, à nossa maneira, com nossas possibilidades e aprofundamos essa história”.
Os dois, que tiveram o privilégio de tocar no grupo Raíces, consideram que Beto Satragni foi “um grande guru”, um grande motor de tudo quanto foi sendo gestado. E reconhecem no Camdombe uma linguagem muito importante de sua música, que continuam sustentando ao longo do tempo.
Matías Mormandi, da Espanha, conta para a gente que “o tambor chegou tarde: a música estava sempre e saía através do teclado, do baixo, da bateria, do violão, do microfone. Uma Buenos Aires sem tambor nos criou com todas as nossas manias e nos ensinou a tocar. O candombe assoprava da parte oriental do rio e era comido e transformado em uma estranha maneira de tocar, parecida com a da milonga, do samba, para mim o candombe era uma unidade”.
Por sua vez, a “Negra” Vanesa Aguilar, diretora da comparsa de mulheres “Iya kereré”, lembra que: “lá houve um lugar de encontro para poder começar a tocar tudo o que vinha aprendendo como percussionista, sentindo-me à vontade e contida, também teve os primeiros toques entre mulheres”.
Muitos são os que compartilharam o ritual. Todos eles asseguram que o que acontecia na “Agrono”, como diziam na época, era “mágico”. Para muitos, foi a sua primeira aproximação com o candombe, para outros foi o espaço onde a paixão pelo tambor finalmente se estabeleceu.
Com certeza, foi uma parte do pulso e impulso de crescimento do candombe em Buenos Aires. Aquilo que se desenvolveu, durante e depois, no âmbito musical riopratense, merece uma história à parte. Por enquanto, escutar os discos gravados a partir desta trama seria uma boa forma de começar a descobri-lo.
myspace.com/matiasmormandi
myspace.com/danimormandiyelcoco
myspace.com/tochiycontumancia
negrabaires@hotmail.com
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Música | Cd do mês: Tango de San Miguel
Candombes do Litoral Argentino
Juan Pablo Serrano
Uma linda maneira de reconstruir o nosso passado.
Neste espaço denominado “CD do Mês”, destacamos aquelas produções discográficas que nos cativam, nos prendem ou simplesmente que temos vontade de que os nossos leitores conheçam. Mas desta vez, chegou às nossas mãos um trabalho que vai além da música. Um trabalho antropológico-histórico que retrata e revaloriza as raízes africanas em nossa música. Mais especificamente, conforme o próprio disco manifesta, trata-se de uma recriação do universo sonoro do Bairro do Tambor de Paraná, Entre Rios, lá pelo século XIX.
Ao longo dos seus treze tracks podemos mergulhar na escuta destas canções originárias e imaginar como pode ter sido essa música afro de Entre Rios. O ideólogo e produtor deste projeto, Pablo Suárez, conta para a gente: “Trata-se de uma trabalho criativo, de ficção. Uma reconstrução hipotética da música afro da cidade de Paraná, não é um registro de como já era uma vez. O jogo é tirar conclusões com todos os conhecimentos que temos e imaginar como eram os instrumentos, os tambores, os toques e também recompor canções baseando-nos nas crônicas da época. Esse é o jogo”.
É por isso que, para dar forma a este projeto, o primero que fizemos foi construir os instrumentos. Assim, utilizamos tambores de tronco escavado, com couro de vaca cravado em uma das suas extremidades, ao estilo dos instrumentos que eram tocados naquela época para conseguir uma reprodução o mais fiel possível.
Escutar este disco é um pouco viajar no tempo, é mergulhar em como era o candombe argentino já que, segundo o próprio Pablo Suárez diz, “diferentemente do candombe de Montevidéu, trabalhamos com coro com canção”.
Além do mais, o CD traz uma parte interativa composta de um corpus documental de texto e fotos sobre os afroargentinos, em geral, e sobre os afroentrerrianos, em particular, baseados nas últimas pesquisas históricas e antropológicas que foram realizadas.
Resumindo, trata-se de um trabalho que “também abre um caminho que visa mais ao mestiço, que é o que eu acho que somos”, diz Pablo. Este é o valor da sua riqueza.
“Mezcla de lenguas
bantu, español, yoruba.
Una canción que nace del recuerdo
de otras tantas canciones…
Uniendo las orillas del río
y del tiempo.”
(“Mistura de línguas
banto, espanhol, ioruba.
Uma canção que nasce da lembrança
de outras tantas canções...
Unindo as margens do rio
e do tempo.”)
Para obter mais informações ou para adquirir o CD: www.tangodesanmiguel.blogspot.com
Entrevista com Pablo Suárez: Mara Padilla
jserrano78@hotmail.com
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Seminário de dança de orixás
Mestre King chega a Buenos Aires
O mestre de dança de orixás Raimundo Bispo dos Santos "King" chega a Buenos Aires para ministrar um seminário de dança nos dias 11, 12, 18 e 19 de Outubro
Este conhecido mestre da dança afro é Licenciado em Danças pela Universidade Federal de Salvador da Bahia, Brasil. Professor, Coreógrafo e coordenador do SESC e da FUNCEB, mestre de outros grandes professores e dançarinos como Augusto Omolú e Rosangela Silvestre. Criador do grupo Génesis, um dos primeiros grupos em desenvolver a passagem das raízes do Candomblé para os palcos.
Destinatários: O trabalho do seminário é dirigido a bailarinos de dança Afro, músicos, atores, professores e artistas em geral que tenham interesse em conhecer a música e a dança dos Orixás, personagens da mitologia afrobrasileira que exprimem um leque de danças que relatam lendas e formam arquétipos ampliando as possibilidades expressivas. Música ao vivo a cargo de: Blue Pires, Sebastián Franco e Fabián Pintos. Duração da aula: 2 horas por dia. Preço do seminário: $ 200. Preço da aula avulsa: $ 65.
Por consultas e inscrições: Blue 15 66 25 23 46, Sebastián Franco 4925-5081, Cecilia Benavidez 15 64 73 15 53. Via e-mail afro.cecibenavidez@gmail.com
Foto www.fundacaocultural.ba.gov.br
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