quilombo ! arte e cultura afro
Outubro 2008 N40! buenos aires | web | contacto

 

Tradução FUNCEB, Esmeralda 965, Buenos Aires / www.funceb.org.ar

Editorial
Buenos Aires será uma bagunça!

Dinah

Se a gente quer, qualquer circunstância é boa para a festa. E para nós, completar 3 anos é um assunto urgente, necessário, inadiável. O Centro Cultural del Sur será o local de encontro, no dia sábado 18 de outubro.

Tudo começará às 18 h, com a feira de instrumentos africanos e afro-americanos, comidas jamaicanas, mostra de fotos e rádio Q!

Depois, já prontos para o baile, teremos a grande honra de receber o mestre King, quem coordenará uma rodada de dança afro junto com os percussionistas Blue Pires, Sebastián Franco e Fabián Pintos.

Quando o solzinho da tarde começar a descer, será projetado o filme Abyali, de Matias Pablo Saccomanno e o curta “Quilombo em Buenos Aires”, de La Colectiva e Q!

Já com a lua pendurada na noite, Zamacuco, Dona Maria e La Percutora dividirão o palco, a música e a dança para encerrar o espetáculo com um toque de candombe no pátio central.

A idéia que nos chama é construir, entre todos, esta comemoração, a fim de convocar, integrar e exprimir as diferentes cores deste “Quilombo!” (em espanhol riopratense significa “bagunça”) portenho.

Vídeo-entrevista | Beto Satragni, Jimmy Santos e a volta do grupo Raíces
30 anos depois, a gente se encontra de novo…
Ramiro Saenz / Juan Pablo Serrano

Nestes anos de “voltas”, onde vários grupos estão se juntando, a melhor notícia é, com certeza, a volta do primeiro grupo de “candombe-rock” do país: Raíces.

Para esta nova etapa, o próprio Beto juntou os músicos originais daquele começo: um muito pouco conhecido (na época) Andrés Calamaro, Jimmy Santos, Juan “Negro” Tordo, Alberto Bengolea e até o primeiro baterista Raúl Campana.

Com a ajuda da companhia discográfica de Litto Nebbia, Melopea, o disco tem data de saída programada para março de 2009. E já é possível conhecer a lista das músicas que inclui tanto novas versões daquele primeiro trabalho de 1978, quanto outros temas novos que, mantendo o espírito original do final dos anos ´70, percorrem o caminho do jazz, do funk e do rock, mas sempre sobre a base do candombe.

O trabalho é composto de clássicos de Raíces de todas as suas épocas, como “Esto es candombe”, cantado por Andrés no seu estilo cigano, “Belmiro”, “Hay un funk en la oreja del obelisco” , todos eles do primeiro disco, B.O.V.dombe, desta vez cantados por Beto e Andrés. Eles também gravaram “Para mi abuelo Jacinto” e “Nube Marrón”, do segundo disco, alguns da última etapa do Raíces, como “Llegó el Tambor”, “Somos todos candomberos”, “Mancada en la pampa” e “De las dos orillas”, temas de Calamaro; “Canecandombe”, um resgate do disco de Moro-Satragni; “El otro cambio, los que se fueron”, tema de Nebbia, que também é cantado por ele nesta ocasião; e um tema de Bengolea, que foi gravado metade em Nova York e metade em Buenos Aires, com um convidado especial, Randy Brecker em um solo de trompete. Definitivamente, trata-se de um disco muito candombe-rock, que é muito representativo da primeiríssima época da banda.

É por isso que, desde a Quilombo!, celebramos a re-união desta banda que soube como incluir o candombe no nosso rock nacional, hoje tão escutado em grupos com público massivo, como Los Piojos e Bersuit Vergarabat. E que os tambores repiquem...

Lista de Temas do Novo Disco: Hay un funk en la oreja del obelisco / Belmiro / Llego el tambor / El otro cambio los que se fueron (convidado: Litto Nebbia) / El loco / Mancada en La Pampa / Para mi abuelo Jacinto / Destilando aceite / Canecandombe / Nube marrón / De las dos orillas / Somos todos candomberos / Esto es candombe / Flor de acero

Foto de Mario Sobrino
ramiro.saenz@gmail.com
jpserrano78@hotmail.com

Capoeira | entrevista com Mestre Boca do Río (Salvador do Bahía, Brasil)
Família de rua, crianças de rua e Capoeira Angola
Dinah

Durante a sua última visita em Buenos Aires, o Mestre Boca do Rio –um dos mestres mais jovens reconhecidos no mundo da Capoeira Angola- compartilhou conosco algumas experiências vinculadas ao trabalho social que desenvolve em Salvador (Bahia) com crianças de rua.

Boca do Rio nos recebe cordialmente, apresenta-se calmo, de movimentos vagarosos e respostas rápidas, como o faz dentro da roda. Para um capoeirista como ele, parece que não há diferença entre o mundo de dentro e o mundo de fora. Como metáfora da vida, a capoeira se apresenta como um mundo para aprender, para olhar as coisas de outro ponto de vista e, principalmente, para criar um outro mundo junto aos outros.

Conta para a gente um pouquinho de tua experiência de trabalho com crianças em situação de marginalidade.

Há mais de 20 anos que desenvolvo trabalhos como arte-educador. O primeiro contato que tive com as crianças foi com o “Projeto Axé”, com crianças de rua. O Projeto lhes oferecia uma refeição diária, um café-da-manhã e procurava botá-los em atividade. Além da capoeira tinha outras, como a Banda Axé, Olodum ou Ilê Ayé, a capoeira era só uma das atividades. Então, as crianças iam, de manhã, para a aula de capoeira e, de tarde, faziam uma outra atividade. Desta maneira, até as 5 horas da tarde, elas estavam ocupadas. Porém, não é fácil, às vezes as crianças chegavam drogadas ou espancadas. E elas diziam que tinham uma família na rua, que já tiveram mãe e pai, mas que tinham ido morar na rua porque os pais eram alcoólatras ou drogados, ou eram ladrões ou estavam na cadeia. Portanto, eles formavam famílias nas ruas, alguém mais velho agia como o pai e, geralmente, os explorava mandando que fossem roubar em troca de proteção. Assim era o convívio: eles, em troca de proteção, saíam para roubar ou vender drogas.

Como funcionava a capoeira nas crianças?

Eles vinham para a aula de capoeira com a auto-estima super-baixa, sem poder ver uma sociedade justa. Então, a gente sentava em círculo e falava sobre a vida deles, o seu dia-a-dia, o que eles faziam, e eu escutava coisas absurdas como “hoje comprei uma arma” ou “hoje vendi drogas”. Era muito complicado, eu escutava essas coisas e tentava conciliar a vida deles com a capoeira. Eu consegui formar muitos deles como capoeiristas, incentivei-os para que estudassem, adaptando-os dentro do grupo da capoeira.

Como você acha que foi esse processo?

É um pouco complicado de explicar. Muitas dessas crianças eram negras, então usávamos a pedagogia da capoeira, porém não como uma arte marcial, mas como movimento cultural, e trazíamos assuntos –como a história do Zumbi dos Palmares- e contávamos a eles de que maneira o Zumbi se apresentava como um líder, como era líder e as crianças começavam a perceber que não por serem negras é que deviam ser marginais. Era muito interessante. Conseguimos resgatar muitas crianças, começavam a ir para a escola ou voltavam para as suas casas. Mas é um processo longo, de uns cinco anos trabalhando todos os dias, todos os dias... e as crianças tinham tanta força para ir! O projeto lhes fornecia o transporte, comiam e bebiam, e esse era o seu espaço.

De que forma se estabelecia o vínculo com eles?

Eu tentava usar a linguagem deles, porque se a gente trabalha com crianças e se coloca em um lugar de adulto, não atinge resultados com elas. Elas estão cansadas de que os adultos lhes digam o que devem fazer e o que não. Para trabalhar com crianças, o melhor é usar o lado lúdico: futebol, brincadeiras com a capoeira; as aulas iam das 8 h às 12 h e, depois, a gente ia para a praia, fazer outras atividades. Por exemplo, trabalhamos com uma história que se chama “Joana Capoeira”, que fala de uma garota que venceu todos os preconceitos por ela ser negra. O conto diz que ela está dentro de uma escola e é capoeirista e vence todas as dificuldades com a sua arte. Com essa história, as crianças compreendiam muitas coisas. Nós pedíamos para elas escreverem ou, se não sabiam escrever, fazerem algum desenho com essa história. Tive ótimos resultados, a gente conseguiu fazer um bom trabalho. Foram cinco anos e deles ficaram algumas crianças que continuaram e hoje dão aula. As crianças adoravam tocar o berimbau, o pandeiro, fazer música, cantar, era uma realização para elas estarem lá.

Qual a síntese que você pode fazer da experiência?

Foi lá onde eu mais aprendi, onde percebi o que podia atingir com a capoeira. Foi um dos momentos na minha vida de capoeira onde mais consegui crescer, trabalhando com as crianças, porque é uma linguagem difícil para se trabalhar, não é fácil, é uma convivência diária...

Como a capoeira, né?

Claro, é a mesma coisa! (risadas).


dinah@revistaquilombo.com.ar



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Quilombo! em imagens

Este continente é grande demais para descrevê-lo. É um oceano inteiro, um planeta à parte, todo um cosmos heterogêneo e de uma riqueza extraordinária. Só por uma convenção reducionista, por comodidade, é que dizemos “África”. (Ryszard Kapuscinski)

Dezembro 2006
Foto de Alexis Roitman alexisroitman@yahoo.com.ar









Para enviar a sua foto
margaritasole@gmail.com



Tango | novos compositores, entrevista com Julián Peralta
Pensar o Tango II
Carolina Di Palma

Começaram em ´95. Formaram o grupo Fernández Fierro e o movimento da Máquina Tanguera. Em três meses criaram nove orquestras típicas com músicos de 19 a 25 anos. Abriram espaços para novos públicos, o Clube Atlético Fernández Fierro (CAFF) e o Orsai. Atualmente, fundaram a Escola Orlando Goñi e a Associação Civil Centro de Desenvolvimento do Tango e da Cultura Riopratense, onde funcionam três orquestras típicas formadas por alunos, a “Piel de Mono”, a “Mario Barakus” e uma que ainda não tem nome. Nesse espaço ensaiam “Astillero”, “Ciudad Baigon” e “Cuarteto Triyo”. Além do mais, dividem o lugar com a Orquestra de cordas do turco Gandolfo, o conjunto de ventos “La Monzón”, o conjunto de violões “Reinaldo y los del Fuego”, o Grupo de Teatro “El Mito de la Tarazca”, um conjunto de percussão... Ufff. E ainda tem mais. Julián Peralta tem 33, é o pianista e diretor de “Astillero” e está em tudo isto desde o começo. Ele diz que a Orquestra Típica já é um terreno ganho. Agora eles querem mais, querem criar novas músicas e fazer com que o Tango seja novamente popular.

Por que o Tango? (abrimos, de novo, com a ampla, mas apertada…)

Porque é confortável. A pergunta também poderia ser: Por que o tango não? Fazendo jazz, por exemplo, a gente sempre joga na segunda divisão, não pode jogar na primeira. No Tango, jogo com Troilo, estou aqui. De Tango conheço obrigatoriamente, estou em uma situação melhor para começar. Celedonio Flores dizia: “o Tango é a única coisa segura, porque é a única coisa sobre a qual não preciso perguntar na Europa”.

O que você sabe do Tango e das suas origens negras?

Há duas versões. Uma diz que o Tango nunca foi negro, que não tem percussão, mas arrasto, e outra diz que a parte negra do Tango foi negada. Acredito que há uma influência negra, principalmente do folclore do sul. A síncopa do Tango poderia ser a milonga campera, isso é tango e é negro. Lá pelo ano 1890, a milonga era muitas coisas e era filha do negro. Mas em 1912, o Tango começa a perder esta característica com Arolas. E esta transformação se instala com De Caro. Com ele começa uma evolução do gênero mais intelectual e menos tribal. Porém, com De Caro, por exemplo, estava o Negro Thompson e o compositor do primeiro Tango editado também foi negro: Rosendo Mendizábal. Da minha parte, quando me torno bastante intelectual com o Tango, volto para as raízes da milonga campera.

Por que a construção partindo do coletivo?

Porque há garotas (risadas). E por causa do relacionamento com os outros. Quando a gente faz música, movimenta o ar, o som é ar em movimento, é para encher um buraco. É só isso. Quando posso escolher, prefiro fazer coisas coletivas, é o mais interessante, é o que te permite uma maior continuidade, transcendência.

Como é a formação de uma orquestra típica (OT)?

É uma formação orquestral com três ou mais bandoneons, três ou mais violinos, piano, contrabaixo e pode ter cantor ou não. Greco chama a sua formação, pela primeira vez, de orquestra típica, a fim de se diferenciar das bandas militares e policiais: a Orquesta Típica Criolla (Orquestra Típica Crioula).

Por que as OT desaparecem?

Desaparecem em 1955. Por um lado, por causa da introdução da música de fora e do Club del Clan (Banda de cantores beat-pop argentinos, que fez sucesso durante a década de 1960) , que promove outras formas de expressão cultural. Por outro lado, o estado de sítio da Revolução Libertadora (Nome com que se conhece o golpe militar que aconteceu na Argentina, no ano 1955) fecha os espaços de Tango. A orquestra sobrevivia nos clubes de bairro e isto desaparece quando estas festas populares são proibidas e estes espaços, fechados. Até 1955, o Tango era popular, depois fica isolado e perde o contato com as pessoas, perde a sua sustentação social.

Que acontecimento possibilita o seu ressurgimento?

Elas ressurgem na década de 1990. Até esse momento, o Tango representava uma música entregadora. Em 1970, o Tango foi conservador, do establishment. No ano 1955, a geração de jovens de 30 anos vai além, pode ir além desse período e deixa de vincular essa música com as pessoas que as tinham espancado. Começamos a compreender o Tango de um outro lugar, a vinculá-lo com outras épocas, anteriores às ditaduras militares. A esta situação se acrescenta a crise política do rock. O rock entra em uma grande crise, deixa de ser rebelde para passar a fazer parte do sistema e da globalização. O Tango existe como possibilidade por essa situação.

Como a Máquina Tanguera foi armada?

Começamos com a Fernandez Branca. A primeira orquestra típica que se consolida no ano 1997. Tínhamos entre 21 e 25 anos e queríamos recuperar o tempo perdido. Pedimos para os nossos professores nos ensinarem as características da orquestra típica de Tango, procuramos a sonoridade da orquestra. Depois, conseguimos a formação, custou muito. Quanto a tivemos, acordamos que a nova orquestra típica teria arranjos novos e um nome que não fosse de fantasia, ou seja, o nome de alguém que tomasse conta, como antes, a orquestra de Troilo, de Pugliese etc. Então, escolhemos Fernández Branca e depois trocamos para Fernández Fierro. Nesse momento, armar uma OT era uma coisa nova, implicava em um risco. Além do mais, dissemos que não íamos nos uniformizar, já tínhamos conseguido vestir-nos como queríamos. Foi assim que apareceram mais músicos e armamos uma outra orquestra, a Imperial. A gente se juntava em um porão do ano ´38, com salas de ensaio com pianos verticais. Havia umidade e paredes grossas que não precisavam ser isoladas. E mais músicos ficaram sabendo. Em três meses se armaram nove orquestras. Todos rapazes de 17 a 26 anos. Cada um deles devia dar 10 pesos para pagar o aluguel e fazíamos festas nos finais de semana para juntar grana para a autogestão. Dávamos a cada OT um arranjo e eles tinham que fazer ou outros. E o cara que havia aprendido lhe ensinava a um outro. E exigimos requisitos: as OT tinham que ter formação de orquestras típicas, ter o nome de orquestra típica, não ter o nome de Tango, deixar para trás o “tango souvenir”, não usar piano elétrico, mas piano acústico, e a gente chamou tudo isso de Máquina Tanguera.

Por que a necessidade de gerar espaços para novos públicos?

Com “Tripa”, o bandoneon de Astillero, armamos o CAFF. Tripa começou a tocar Tango quando foi ver os shows da Máquina Tanguera. A gente percebeu a importância de aproximar o Tango de outros públicos. O público das milongas tradicionais é gente que vive respeitando códigos de uma outra época, é o público dos anos ´70 que escutava Tango, são os que ficam hoje. Mas, na verdade, o público tradicional do Tango, o verdadeiro, o de antes dos anos ´70-´80 escutava música sofisticada, e essa música, além do mais, era popular. Esse público tolerava uma música de qualidade. Meu pai, por exemplo, tem 66 anos e aos 13 já não escutou mais Tango. Todos esses anos proibidos perderam os espaços e o público do Tango. Hoje há novos públicos, novos espaços, são muito jovens, subterrâneos.

O que acontece com a criação coletiva na formação em orquestra?

A criação coletiva nas orquestras é uma bomba de tempo, o novo é muito difícil, não é uma formação dinâmica, mas útil para a procura do passado. Porém, há um problema para criar qualquer coisa nova, não é dinâmica para experimentar e desenvolver coisas novas.

Como o Tango conseguiria reaver a sua condição de popular?

Para ser popular deve ser cotidiano, confortável, estar lá. E, além do mais, precisamos gerar Tangos novos que funcionem hoje.


www.astillerotango.com.ar
carolina.dipalma@gmail.com

Atualidade | novos gêneros musicais: o Kuduro
Ecos de encontros e desencontros
María Paz Moltedo

A rivalidade entre dois países pode ser representada através de palavras, discursos, decretos, acordos e desacordos; porém, nada é tão forte quanto a música para afundar a superfície de um problema e mostrar as raízes de qualquer contradição. Uma delas é a que vivem os descendentes dos escravos angolanos de Portugal, que exprimem a sua mistura de mundos através de uma combinação de sons que gritam até o cansaço: o Kuduro.

A chegada do governo de Portugal, em 1483, a Angola, um país localizado no sudoeste da África, começou como um intercâmbio comercial próspero para ambas as partes, mas os anos se passaram e o disfarce virou um farrapo. Assim, vieram à tona as verdadeiras intenções de dominação, que culminaram na colonização de quase todo o território africano por parte dos portugueses.

Angola perdeu a sua liberdade e muitos angolanos foram deslocados daqui para lá, com o intuito de satisfazer os desejos de poder de Portugal, até que diferentes movimentos de liberação proliferaram e viraram a situação. Em 1961 surgem diferentes frontes de luta que tentam se rebelar militarmente contra o poder colonial, mas não o conseguem até 1975, quando Angola inicia um processo de descolonização que provoca uma guerra civil entre diferentes movimentos e acarreta 500 mil vítimas. Depois de diversos enfrentamentos, a intervenção de Nelson Mandela e de diferentes países como Cuba e a Rússia, em 2002 são assinados os acordos de Lusaka, com os quais se alcança o fim do conflito e que fazem de Angola um país livre de guerras, mas devastado.

Por trás da música sempre há alguém que sente, vive e pensa com o poder de exprimir um conglomerado de coisas que, felizmente, não são as mesmas para todos. Desta maneira, o Kuduro pode ser um estilo de música sensual, de corpos voluptuosos que rebolam com um ritmo impossível de se seguir para alguns, mas que para outros pode ser uma via de expressão de anos de injustiças.

A origem deste novo estilo musical nasce em Angola, mas rapidamente é importado para Portugal por filhos de escravos angolanos que moram nos subúrbios de Lisboa e Luanda e desejam exprimir a violência social e política que vivenciam, mesmo “liberados” do domínio português.

A mistura de interpretações desta dança pode ser o resultado da fusão de estilos que ela carrega: ritmos angolanos como a semba e a kizomba tiveram que esperar, ao compasso de constantes enfrentamentos militares, até os anos ´80 para transformar-se no Kuduro, ao misturar-se com sons tecno, gerados por computadores básicos de acordo com parâmetros do avanço da voragem tecnológica, e inspirados pelo house e o eletro ocidentais.

“Cu duro” é a tradução do nome deste movimento sensual que honra o seu nome e se estende com espasmos corporais que explodem de sonoridade; uma dança que destila alegria mas, ao mesmo tempo, extravasa dos seus poros gestos de reclamação, que podem ser percebidos em cada linha desenhada pelos corpos dos que o sentem por dentro e, portanto, podem mexer-se dessa maneira. As suas letras tratam de assuntos como a violência, o sexo e a denúncia política; ao ver kuduristas em ação, a gente pode sentir essa dualidade entre jorros de endorfinas que impulsionam a pessoa a dançar e a sensação de algo que pesa, um mal-estar, uma queixa motivada por querer que as coisas sejam de uma outra maneira.

A popularidade do Kuduro pouco tem a ver com uma intenção comercial produzida, regravada e estruturada como costuma acontecer com muitas das músicas que se tornam populares no ocidente; foram os candongueiros, motoristas de candongas -caminhonetes de transporte público de Angola- que receberam CD´s gravados de kuduristas como Dog Murras, Tony Amado e Semben, e os fizeram soar durante a viagem. Esse público era o que escutava a “primeira gravação” da banda e fazia a sua própria crítica ao optar entre escutá-la novamente ou não, e foi assim como cada novo hit foi definido.

Das candongas angolanas, os kuduristas viajaram através de ondas sonoras para Portugal, que fez eco do Kuduro graças aos descendentes dos angolanos emigrados a Lisboa na época da dependência colonial, que o desenvolveram em plenitude e forjaram, assim, o braço europeu que uniu Angola e Portugal, além da desunião política gerada pela injusta dominação portuguesa sobre o país africano. Desta maneira, surgiram bandas de lisboetas como Buraka Som Sistema, que tocaram no festival musical português mais importante, o Festival do Sudoeste, e ocidentalizaram mais um pouco o som, ao ponto de gerar entusiasmo em DJ´s de diferentes países do mundo. Um deles, o francês Frederic Galliano, produtor de house, se aproximou de Angola para mergulhar no estilo e para poder obter uma poderosa poção, resultado de combinar os sons de uma arte espontânea que sai do corpo com a tecnologia do ocidente, que faz uma contribuição, mas não consegue a originalidade do som do Kuduro.

Se a mistura artística gera frutos que nascem quase por natureza e se entrecruzam entre Angola e Portugal, para depois serem colhidos por diferentes ouvidos sôfregos de música nova, cabe se perguntar por que é tão difícil fusionar culturas em matéria social e política, a fim de se deixar cair na aventura de conhecer o outro e compartilhar com ele, misturar-se e aproveitar o que temos de diferente dos outros, sem nos julgarmos. Tudo seria muito mais fácil se pudéssemos desfrutar das diferenças da mesma maneira que podemos dançar e escutar uma melodia desconhecida até aprendermos a letra e desfrutá-la.

foto www.myspace.com/burakasomsistema
manaconda6@hotmail.com

Candombe | bairro El Cerro
As cordas do Montevidéu humilde
Adriana “labozal” Araujo


Há três anos que andamos remando entre Cordas de diferentes zonas de Montevidéu. Embora seja verdade que o Sul é o lugar tradicionalmente conhecido, há muitíssimas expressões nos bairros de Montevidéu.

Já se escreveu bastante sobre o Candombe, a sua história e o seu presente. Muitas são as expressões que surgem dele em um crisol de fusões que não só ultrapassam as fronteiras Americanas como também percorrem o Mundo.

Eu parto de uma confirmação: que o candombe é liberação, é rebeldia diante da adversidade em tempos difíceis, a expressão mais fértil, apesar de ser a mais antiga e segregada pelos âmbitos culturais.

Não falo de “comparsas” (blocos de carnaval), falo de ”cordas”… tambores que se autoconvocam nas esquinas e nas praças do Montevidéu pobre, do Montevidéu esquecido.

Não é apenas uma expressão musical, é uma experiência ritual que se executa no pôr do sol. É encontro de “parentes”. Todos somos parentes. Temos em comum a lembrança alegre ou o cansaço ou a tristeza: tudo se transmuda em sons, compassos e contratempos que transportam o participante a tocar, dançar ou caminhar detrás ou aos lados em uma comunhão perfeita nesse momento e nesse ritmo.

Afrodescendentes uruguaios…onde a cor já deixa de ser aquilo que desune, pois tudo se une na entrega de cada percussor, de cada dançarino, da capacidade de alegria em tempos tão cruéis como sempre o foram para aqueles que não utilizam a xenofobia como uma desculpa para se excluírem, mas para fortalecer a fé em um futuro onde tudo zoe em um candombe universal, integrador... humano.

A lua cheia faz com que os mais intensos frios sejam mais uma pérola para uma experiência inesquecível. Eu percorro os bairros humildes e tomo o pulso da vida que cada história entrega. História de tambores e gente. Começaremos a nos encontrarmos a partir deste quilombo triunfante, aproximando fronteiras e emoções.


Adriana Araujo "La Negra", faz parte do projeto Resistência FM 102.3 do Bairro El Cerro (Montevidéu). Através desta emissora registra histórias de vida de pessoas, entre os fogos do candombe que aquecem os ânimos ou nas madrugadas de lua cheia em uma cidade oculta.

drianorama@gmail.com

Candombe argentino | ressurgindo da história
Os ancestrais silenciados pedem a palavra
Mara Padilla

Durante meio século e até o ano 1950, pelas cidades de Santa Fé e Paraná desfilou a mítica comparsa “Los Negros Santafesinos”, nas festas do Rei Momo. Mais de cinqüenta anos depois, o legado cultural do candombe no litoral se renova por fora dos festejos do carnaval.

E este ressurgimento acontece graças à criação da oficina de candombe “Los ancestros silenciados piden la palabra”, coordenado por Savino Pozzo e auspiciado pelo município local. Este espaço nasce a partir de uma iniciativa da Casa da Cultura Indo-Afro-Americana, localizada na cidade de Santa Fé, que há 20 anos realiza uma tarefa de resgate e promoção destas culturas.

A oficina está incorporada a um movimento que foi chamado de “Candombe argentino”. Nele trabalham o musicólogo Pablo Círio, Pablo Suaqué (músico do grupo Bakongo), Pablo Suarez (pesquisador, recente editor de um CD sobre candombe da cidade argentina de Paraná), agrupações de candombe das províncias argentinas de Corrientes e Chaco e a Casa da Cultura Indo-Afro-Americana. Entre algumas de suas atividades se encontra a realização das Comparsas Afrolitoraleñas (blocos afro-litorâneos) com toque, coral e dança, que se relacionam com o folclore e a mestiçagem.

“A idéia é atingir uma linguagem própria a partir da prática do candombe, tomando o seu conceito mais profundo, que é uma forma de vida. Não partimos de um toque ou de uma fórmula musical, mas de uma base que começa construindo conjuntamente nossos instrumentos, cantando enquanto cozinhamos ou conversamos sobre a história do lugar, e se estende até desenvolver uma forma de fazer comunitária. Como ingredientes, também usamos a paisagem sonora desta terra, utilizando o chamamé e o rasguido doble (ambos os dois, gêneros musicais típicos do nordeste argentino). Tomamos códigos básicos, como que os tambores falam e que aqueles que dançam dialogam entre si, bem como com os tambores e o canto. Desta maneira, desenvolvemos este fazer próprio, porque o candombe também é conversa”, conta Savino, depois de encerrar uma jornada de oficina percutindo canas no chão.

Para armar os tamborins, eles utilizam troncos ocos, como era feito antigamente. “Isto tem um significado muito forte, já que, para estas culturas, quando uma pessoa importante da comunidade morria, o seu espírito ia morar nas árvores”, acrescenta Savino.

Ele nos diz que mais do que ensinar, gostaria de começar a aprender do conhecimento inconsciente que o pessoal tem nos bairros. “Não é verdade que não ficou nada do africanismo. O fato de saber que aqui houve uma Comparsa de candombe com afrodescendentes que atuaram até 1950, foi para mim um ponto de inflexão, o candombe sempre esteve aqui, talvez com outra forma, mas esteve”.

No dia 12 de outubro, em Paraná, é realizado, pelo sétimo ano, o Contrafestejo, com tambores que lembram dos negros da cidade de Paraná do bairro do tambor, aproximando a história, tirando-a para a luz e o som, para todos aqueles que comparecem ao contrafestejo.

Neste ano se somaram os grupos de Pablo e Savino, continuando com a comunhão do fazer entre todos. Os tambores soarão de novo no Litoral, dando um novo significado àquilo que aconteceu, àquilo que é. Cruzaram novamente o rio, como 50 anos atrás o fizeram os negros de Santa Fé, para se unirem em uma só comemoração.

maraydanila@yahoo.com.ar

dança afro | Ocupar-se dos lugares que ocupa
Será que a dança afro é uma linguagem artística?
Paula Inés Picarel

De lugares que são até contrapostos, esta dança é praticada nas ruas e nos templos. Também em salas de dança e em centros culturais. E nos palcos, nas escolas, nas cadeias. Sem sombra de dúvida, como linguagem expressiva, ela circula em espaços totalmente diferentes dentro de um mesmo tempo: o presente. A pergunta é: será que cabe dentro de suas linguagens, a artística?


Refletir sobre ela significa pensar tanto do lado do criador quanto do lado do espectador, já que qualquer arte é construída na relação que se estabelece entre ambos os dois. Qualquer linguagem artística carrega, além do mais, as suas próprias condições de produção e de reconhecimento. Ou seja, códigos e técnicas que permitem identificar essa criação dentro do âmbito de sua especificidade (neste caso, “dança afro”). E as coisas acontecem, um movimento tenso de aceitação e rejeição do qual a dança afro se mostra e continua abrindo-se caminho na Argentina.

Nesta briga, vêm à tona algumas problemáticas. Entre elas, que os ambientes eruditos da arte costumam subestimar a dança afro como gênero da dança. Os motivos podem ser vários. De um ponto de vista semântico, provavelmente ela não é compreendida. Do sintático, talvez, a sua técnica específica não seja reconhecida.

Um outro ponto a levar em consideração é que, freqüentemente, quando a dança afro sobe ao palco, ela não é compreendida pelo público massivo e não especializado. Neste sentido, abre-se uma brecha bastante grande entre as condições de produção e as de reconhecimento, já que para compreender a ação dramática, o espectador muitas vezes precisa conhecer do assunto ou se informar antes de sentar na poltrona. Porém, as expressões da dança afro no âmbito das passeatas contra a impunidade, no espaço sagrado de uma casa religiosa ou entre quem conhece a especificidade de sua linguagem, são contundentes e, na maioria dos casos, aceitas, bem seja que o público goste delas ou não.

Em um âmbito mais geral, ainda, a denominação de “dança afro” se refere a diferentes conteúdos, onde nem sempre fica claro do que se está falando quando se fala em dança afro. Ou seja, o seu nome e as suas expressões navegam em um sem-fim de definições ou de classificações, que divergem conforme o olhar. Será que é candombe? Será que é dança tradicional africana? (Do Senegal, da Guiné…)? Será que é a dança que veio do Brasil e de Cuba nos anos ´80 e que, desde aquela época, abre-se passagem como expressão cultural local? (É esta última noção a que inspira as reflexões anteriores).

Estas problemáticas são só algumas delas. Junto de muitas outras, elas se inserem em um campo mais amplo e muito mais complexo, que é o da cultura afro. Cultura sobrevivente e permanentemente oprimida através dos séculos, que ainda suporta discriminações mais ou menos sutis. Será que é isso o que queremos os que fazemos uso desta arte, em qualquer uma das suas instâncias expressivas? Será que gostaríamos de legitimar as suas linguagens expressivas para que elas ocupem o seu lugar com menos marginação? Será que o nosso objetivo é comunicarmo-nos com um público massivo? O que podemos mudar como estudantes, como professores ou como consumidores, a fim de conseguir um outro tipo de relacionamento com a sociedade? Será que nos interessa gerar novos diálogos, ou estamos bem assim?

Do âmbito da dança afro chegam inquietações que têm a ver com a sua forma de socialização. A sua enunciação, o seu emprego e a sua circulação integram funções múltiplas, que a escolhem como lugar de resistência, de encontro consigo mesmo e de autoconhecimento, de procura ou aproximação do mundo espiritual do qual provém, como lugar de expressão coletiva... como obra de arte. E voltamos ao início. Umas semanas atrás, eu realizei uma pequena enquete virtual. Perguntei para 25 pessoas (só dançarinos e professores de dança afro): Será que a dança afro é uma linguagem artística? Recebi 11 respostas, todas afirmativas, com as suas correspondentes justificações. Se bem esta enquete não serve como elemento de medição, porque não foi consultado o segmento de população necessário, cabe se perguntar: se a dança é uma linguagem artística, será que nos interessa que ela seja reconhecida socialmente como tal? O que precisa ser revisado para que ela goze do mesmo status que o resto das danças?

Foto: Eugenio Fernández
paupica@gmail.com

Música | CD do mês: La Tenaza
Jazz Latino, Tango Som
Juan Pablo Serrano

Se a gente parasse para pensar em todas as músicas que se originaram na África, não bastariam estas páginas para descrevê-las. Porém, entre tanta influência, o jazz, a milonga, o candombe, o som e o tango são os principais ritmos que começaram a ser gestados deste lado do mapa. E que melhor que ter, neste caso, um trabalho que reúna, com originalidade, todos esses ritmos em somente 11 temas? É isso o que é La Tenaza “Tango Son”, o novo trabalho de Hernán Mazzitelli, no baixo, Mariano Toziano, no piano, e Mariano de Hoz, na bateria e percussão.

Este trio tem a particularidade de reproduzir esses tangos clássicos tão escutados pelos nossos ouvidos, mas em ritmo de Jazz Latino. Sempre recuperando a raiz africana da música, com toques de milonga, candombe, som e até bolero.

Pelo disco desfilam autores do tamanho de Gardel e Le Pera, em “Volver” e “Mi Buenos Aires querido”, Homero Manzi com “Malena”, Astor Piazzolla com “Fuga y mistério”, Mariano Mores e o seu “Taquito militar”, bem como Enrique Cadícamo, com o clássico “Los Mareados”, entre outros.

Sob a produção prolífica de Nicolas Falcoff, que já vem nos presenteando com jóias da sua companhia discográfica Suramusic, este disco é ideal para sentar (com um copo de bebida na mão, é óbvio) e viajar pela América Latina inteira escutando estes clássicos reinterpretados com extrema delicadeza.

Nestes tempos de tanto “Bossa and...” e de tantos experimentos musicais, podermos nos encontrar com a originalidade deste trio é como uma onda refrescante entre tanto deserto. Sejam bem-vindos!

Temas: Malena / Taquito Militar / Fuga y Misterio / Guajitango / Volver / La Puñalada / Mi Buenos Aires Querido / Milonga para mi padre / Palomita Blanca / Los Mareados / A Fuego Lento


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